Haja serenidade!

São Paulo, 8 de Julho de 2013

Muito mudou desde aquela capa do The Economist, em finais de 2009, que mostrava a estátua carioca do Cristo Redentor a levantar voo. Nessa época, os jornais quase só continham boas notícias sobre o Brasil, o PIB crescia aceleradamente, muitos ascendiam à classe média, havia uma febre de consumo, grandes IPO’s, fundos de investimento que eram inaugurados uns atrás dos outros, empresas com elevadíssimas perspectivas de crescimento, multinacionais brasileiras (bem capitalizadas num mundo descapitalizado) aumentavam pujantemente os seus tentáculos, novos milionários e bilionários criavam-se e outros consolidavam-se. O Brasil era um El Dorado, o gigante que finalmente começava a andar, enchia-se o peito e gritava-se "é a bola da vez". Hoje, com a economia bem menos dinâmica e com surtos de instabilidade social, o sentimento é cada vez mais de pessimismo entre locais e estrangeiros.

Durante o período do optimismo (durante o qual fiz o meu estágio do MBA no Rio de Janeiro), resgatavam-se os históricos discursos grandiosos, que vêm já desde quando o Brasil ainda nem se chamava Brasil, já visíveis na carta de Pero Vaz de Caminha a El-Rei D. Manuel, invocando as belezas maravilhosas, as riquezas inigualáveis, o clima invejável, as maiores reservas de água potável, a maior floresta tropical, as terras mais férteis, as enormes reservas minerais e petrolíferas, a maior produção de minério de ferro, a maior capacidade de exportação de carne, café, açúcar e tabaco, a colossal extensão do território, o povo pacífico e amigável, um lugar de magnífico potencial económico, o país do futuro. Hoje, quase que se atira a toalha ao chão, há muita desilusão, e muita chacota, indignação, posturas críticas contra o mau funcionamento de muita coisa, contra a falta de infraestrutura e serviços públicos, contra o crime e a corrupção, há receio de um eventual regresso da inflação, aumentou o deslumbre com a vida lá fora, com o que é europeu e principalmente com o que é dos EUA, voltou a descrença quanto ao desenvolvimento e à industrialização, é o país do futuro e sempre o será.

Enfrentando uma menor demanda chinesa por matérias-primas, um consumo que começa a esbarrar nos limites do endividamento e muitas medidas governamentais que atentam contra a iniciativa privada, a economia brasileira encontra de facto bem menos razões para se apresentar robusta. Mas tal veloz passagem do ufanismo ao desânimo, tocando por vezes no complexo de inferioridade, apenas mostra que houve muito exagero nas apreciações que foram feitas acerca do futuro da economia brasileira.  Houve claramente uma euforia com o momento que era positivo e achou-se cegamente que o que gerava crescimento estava para ficar. Bem me recordo que havia vozes de discórdia, mas essas ouviam-se mais baixo, gritar contra uma multidão em marcha apenas nos dá voz rouca, e o que prevalecia era a excessiva confiança.

Mas se o optimismo veio em demasia, o mesmo poderá estar a acontecer com este recente pessimismo. É provável que os próximos tempos (talvez dois ou três anos?) sejam economicamente mais difíceis no Brasil, que as empresas comecem a demonstrar mais sintomas do abrandamento e que o (quase) pleno emprego deixe de ser uma realidade. Mas, desde que o negativismo não se materialize na possibilidade (que, para já, é aparentemente remota) de regresso aos longos e muito difíceis de navegar tempos da bancarrota e da hiperinflação, o Brasil continuará a ser o Brasil, com todos os seus problemas e as suas virtudes, com novos ciclos de expansão e de contracção pela frente.

Tal agitação de ânimos em nosso redor complica as nossas tomadas de decisão, principalmente porque seguir os agitados tende apenas a conduzir-nos a chegadas e a saídas tardias. Mas, por outro lado, não podemos isolar-nos intelectualmente e achar que tudo o que se diz está errado, porque muito do que se diz está certo. Temos de conseguir ter a arte para ouvir e discernir o que é verdadeiro do que é exagerado, percebendo também que o que é um  facto hoje não necessariamente continuará a sê-lo amanhã e tendo sempre em mente que o que é bom para uns poderá ser mau para outros, e vice-versa. E isto não se aplica apenas ao Brasil, aplica-se a muitos outros lugares, inclusive Portugal.

O caminho da mudança

São Paulo, 25 de Junho de 2013

O Brasil acordou para a política. Pequenos desabafos passivos ou meramente satíricos entre amigos durante almoços ou ao sabor de chopps converteram-se repentinamente em ruas cheias de gente gritando e erguendo grandes exigências e severas críticas numa total afronta aos políticos, soltando-se indignações há muito contidas. E assim, como que de um dia para o outro, o povo brasileiro descobriu que pode demandar.

Protestos em São Paulo contra um aumento da tarifa de ônibus transformaram-se e alastraram-se, tornando-se numa gigante e espontânea revolta contra os muitos problemas do país. Centenas de milhares de pessoas na rua, novos, velhos, estudantes, trabalhadores, pobres e ricos, contra uma panóplia de falhas, desde a corrupção dos governantes, ao elevado custo de vida, ao despesismo na construção dos estádios para o Mundial e à falta de qualidade dos serviços públicos como transportes, saúde e educação. Quanto aos culpados, esses parecem muito bem identificados: os políticos; tanto os que estão no poder, como os que já estiveram e os que querem estar.

O governo, transparecendo medo, veio prontamente anunciar a revogação dos aumentos das tarifas de ônibus em vários lugares do país. Em consequência, a manifestação fortaleceu-se e veio para a rua exigir mais. E o governo continuou a decidir sob as ordens dos protestos: anulou-se o programado reajuste anual das portagens das rodovias de São Paulo, anunciaram-se umas quantas reduções de impostos e de outras tarifas de transportes, e a Presidente Dilma Rousseff veio discursar promessas de responsabilidade fiscal, de reforma política, de combate à corrupção e de desenvolvimento dos sistemas de transportes, de saúde e de educação. Muito disto soou a populismo, principalmente se recordarmos que estamos apenas a cerca de um ano das eleições. Só faltava mesmo mandar prender de imediato alguns dos acusados do mensalão para que assim se conseguisse levar o povo à euforia... E, a rapidez foi tal que fez destes anúncios algo pouco democrático, com a autoridade a ceder à vontade dos que mais fizeram barulho, levantando-se a questão se isto foi democracia ou barulhocracia. Acresce que, apesar dos anúncios grandiosos e de tom estadista, além da redução de tarifas e de impostos, houve muito pouco de novo, fingindo-se que não existiram os planos PAC 1 e PAC 2 que muito prometeram e pouco fizeram e fingindo-se que a vontade de pôr mão na corrupção é uma coisa nova. E fica também a dúvida de como é que os governantes vão conciliar cortes de tarifas e de impostos e novos planos de investimento com o comprometimento em manter a sanidade orçamental, especialmente num momento em que a economia desacelera e a inflação aumenta. Esperamos para ver, mas provavelmente não vão passar das meras palavras.

Contudo, independentemente da acção do governo, as manifestações são uma grande vitória para o Brasil. Num país onde a corrupção e o crime proliferam, onde muito do que é público funciona mal, e onde os governantes vivem confortáveis com tais situações, somente uma forte vontade do povo tem capacidade para gerar mudança. É certo que as reivindicações têm sido difusas, e por vezes com pouco sentido, tal como a financeiro-ignorante exigência de tornar os transportes públicos gratuitos. Mas, no seu grosso, são mais do que legítimas, querendo a população apenas que o Estado cumpra a sua obrigação: que proteja os cidadãos da insegurança e do crime e que use as verbas recolhidas sob a forma de impostos para preservar e desenvolver os espaços e sistemas públicos. Agora os governantes sentem que estão sob uma intransigente apreciação, sob o olhar bem atento de quem eles deveriam estar a representar. E essa pressão é boa para o país, principalmente porque eles sabem que isto não é uma revolta contra um problema temporário. Eles sabem que, com a taxa de desemprego em níveis historicamente baixos e após uma década de fortes melhorias na qualidade de vida da população, os protestos nascem não de um desespero com uma situação actual, embora esta não esteja tão boa quanto já esteve, mas da consciencialização por parte de pessoas em ascensão cultural e económica de que há problemas e que muitas coisas têm que ser diferentes. E, tirando alguns casos em que os nervos se exaltaram e outros em que selvagens se aproveitaram da confusão para roubar e depredar, as manifestações têm sido civilizadas e pacíficas. Acho que, principalmente por isso, representam um marco histórico para o Brasil. Uma viragem, em que queixas passivas se transformaram numa real vontade de mudar e de construir.

Ainda é cedo para entendermos o impacto de tudo isto. E às vezes assusta o facto de que as manifestações exibem um fundo de revolta contra o mau funcionamento da democracia, pois, na ausência de uma nova ideologia e na existência de um repúdio popular a uma eventual ditadura, tem-se mesmo que se conseguir completar a difícil e trabalhosa tarefa de melhorar as instituições democráticas existentes, porque há o risco de emergir a anarquia. Por isso, é preciso ter a calma e a paciência inerentes à compreensão de que nada vai mudar de um dia para o outro: elevar os sistemas de transportes, justiça, saúde e educação a patamares desenvolvidos é uma tarefa para vários e talvez longos anos. Mas, por outro lado, não se pode parar, porque se a população voltar à normalidade, os governantes prontamente também o farão.

Mediante tão árduo caminho, o que vai garantir a mudança não é a reiteração de promessas homéricas por parte do governo, mas uma vontade da população em não deixar que esta exteriorização da indignação se torne efémera, e contribuir para o progresso do país no dia-a-dia, com cada um dos cidadãos a tentar fazer com que o que está em seu redor vá melhorando gradualmente, porque uma vontade revolucionária de mudar tudo e de um dia para o outro pouco deverá conseguir e comporta um risco elevado de descambar no caos. Mas, acima de tudo, o que é preciso é que a descrença que agora virou esperança assim persista.

Processo em curso

São Paulo, 16 de Junho de 2013

Em 2007, alguns brasileiros conhecidos, entre eles Seu Jorge, Djavan, Milton Nascimento e Ildi Silva, submeteram-se a testes genéticos, em busca da sua ancestralidade (iniciativa da BBC Brasil). Os resultados foram muito pouco surpreendentes: encontraram-se raízes africanas, ameríndias e europeias, e em proporções que evidenciam várias gerações de mestiçagem. E, eles não são, de todo, excepções.

44% da população brasileira considera-se mestiça (IBGE 2009). E a este já por si alto percentual ainda acrescerão todos aqueles que tem ascendentes de outra raça e que não o sabem ou que por qualquer razão não o desejam declarar. Na verdade, nem precisamos de estatísticas, basta andar pelas ruas para verificá-lo, parecem infinitas as tonalidades de pele, uns mais claros, outros mais escuros, um longo dégradé entre o negro e o branco, passando pelo vermelho e o amarelo. A misturada é tal que o ex-Presidente do Brasil (e também ele mestiço) Fernando Henrique Cardoso uma vez jocosamente escreveu: "de vez em quando, pais de pele clara têm um filho mais escuro e ninguém desconfia, pois ninguém sabe o que aconteceu umas quantas gerações atrás."

E mesmo o branco brasileiro é frequentemente uma mescla de brancos de origens distintas, como a portuguesa, a italiana, a espanhola, a holandesa e a alemã. Tal como o negro brasileiro, descendente de diversas etnias oriundas de lugares como o que são hoje o Congo, Angola e Moçambique. E ainda há as ascendências de árabes, de japoneses e de indígenas americanos. É uma multiplicidade de combinações. E é uma mestiçagem que, tanto quanto sei, é singular.

Perante tal evidência, já na década de 30, o sociólogo Gilberto Freyre começou a descrever a miscigenação racial brasileira como elemento mitigador das desigualdades sociais, referindo-se posteriormente ao Brasil como sendo "a mais avançada democracia racial do mundo”. Aparentemente muitos foram os seus críticos, e porventura haverá ainda hoje quem questione se em vez de sociologia, Freyre não estaria a praticar puro lirismo ou então propaganda política. Contudo, ainda que talvez um pouco exagerado, ele terá o seu quê de razão. Basta pensar que, nos EUA, o casamento interracial passou a ser legal em todo o seu território somente a partir de 1967 e que, na África do Sul, o apartheid foi abolido apenas no surrealmente tardio ano de 1994. Ao invés, no Brasil, o cruzamento vem acontecendo desde o início da colonização dos portugueses, que, segundo historiadores, por já serem eles uma consequência de fusões (lusitanos com celtas, romanos, germânicos, muçulmanos e até judeus), associado ao facto da sua maioria ter chegado à colónia desacompanhado de mulher, tinham uma maior propensão para se envolverem com mulheres das populações indígena e escrava.

Contudo, a harmonia não é perfeita. Longe disso... Existem desigualdades, e diria até que muito vincadas. Segundo um inquérito do IBGE, em 2009, entre as pessoas auto-declarados negras ou mestiças apenas 5% tinham curso superior e 13% eram analfabetas, em contraste com as taxas de 15% e de 6%, respectivamente, entre as pessoas auto-declaradas brancas. Além disso, o salário médio do primeiro grupo era 40% inferior ao do segundo. E, qualquer olhar minimamente atento rapidamente repara que as classe mais altas são essencialmente brancas, e que os mais desfavorecidos são mulatos e negros. Outra pesquisa, de 2011, mostra que 64% dos brasileiros considera que a raça interfere na qualidade de vida dos cidadãos. Sim, existe racismo no Brasil. Visível não só nos desníveis económicos, mas também em alguns preconceitos e tensões que vão transparecendo no que se ouve e no que se lê.

Contudo, e felizmente para a igualdade de direitos, as coisas parecem estar a mudar. Durante os últimos 10 anos, nos quais o Brasil viveu um período de franco desenvolvimento económico, das 40 milhões de pessoas que ascenderam à classe média, 75% são negros (Instituto Data Popular). Há também algumas personalidades de referência, além daquelas dos mundos (mais meritocráticos?) dos desportos e das artes, que hoje são negras, entre as quais se destaca o Joaquim Barbosa (Presidente do Supremo Tribunal de Justiça). E, agora olhando para o futuro, o crescente desenvolvimento cultural que o mundo tem vindo a presenciar deverá fazer com que os preconceitos irracionais como racismo tendam a diminuir, tornando-se cada vez menos aceites, e no limite invertendo-se a situação, gerando-se um ambiente impróprio para quem tem a ignorância de querer discriminar. Quer dizer, pelo menos assim o desejamos. E o Brasil, o país com mais afro-descendentes fora de África, precisa disso.

Num mundo onde os ideais passam cada vez mais por desprezar o racismo e onde as sociedades que conseguem integrar pessoas de origens diferentes são vistas como um símbolo de cosmopolitismo e de desenvolvimento cultural, mas também num mundo onde a realidade se distancia muito do idealizado, o Brasil destaca-se com os seus 5 séculos de miscigenação. E, se conseguir ter a capacidade para resolver os problemas raciais que ainda o assolam, e sem a qual não poderá se transformar na Grande Nação que ambiciona ser, o Brasil poderá tornar-se num exemplo de equilibrada convivência entre diferentes seres humanos. Exemplo que tanto faz falta ao mundo.

Mais que tudo, é tropical

São Paulo, 30 de Abril de 2013
 
Usam o verbo "falar" como se fosse "dizer", o "ter" como se fosse "haver", começam uma frase no tu e acabam-na no você. Falam no gerúndio. São bem mais relaxados perante as regras gramaticais. Preferem o "diz para ela" ao "diz-lhe", o "vou na praia" ao "vou à praia". Desconhecem algumas palavras nossas, e nós também desconhecemos algumas deles. Aqui "perceber" não significa "entender", "gelado" não significa "sorvete" e "peão" não significa "pedestre". A língua portuguesa aqui é usada de uma forma diferente.

Alguns de nós criticam, consideram-na desestruturada, alguns até a chamam de errada. Outros adoram, a musicalidade do seu sotaque, a desenvolta criatividade das suas gírias. Gostos são subjectivos! O que é um facto é que, se o português tem hoje a importância que tem, deve-se principalmente ao Brasil, que, com quase 200 milhões de habitantes, tem 75% de todos os falantes desta nossa língua, em vincado contraste com os menos de 4% que habitam em Portugal. Eles são o 5º país com mais território, o 5º mais populoso e a 6ª maior economia do mundo. Enquanto que nós nos queixamos de ser pequenos e periféricos, eles são grandes e o centro da região deles. E tais discrepâncias só tenderão a acentuar-se no futuro, pois estima-se que, em 2050, o Brasil tenha 260 milhões de habitantes (US Census Bureau) e seja a 4ª maior economia mundial (PwC), enquanto que Portugal permanecerá com cerca de 10 milhões de pessoas e a sua economia tornar-se-á relativamente menor.

E, se em Portugal temos o gosto dividido em relação ao português que se fala em terras de Vera Cruz, os estrangeiros parecem bem unânimes. Já foram vários os que conheci que gostariam de aprender ou que já estão a aprender português simplesmente porque acham-no bonito. Mas não é o nosso modo de falar que eles apreciam, não é da nossa maior elaboração sintáctica nem do nosso sotaque cheio de erres e de ches. Eles querem é aprender o português do Brasil, com as gírias daqui, eles gostam é do jeito de falar gingão, cantado e soletrado.

Quanto aos desvios gramaticais, não sei se temos muita moral para lhes apontar o dedo. Primeiro, porque uma coisa é o linguajar de rua e outra coisa é a linguagem formal - se, no Brasil, abrirmos um livro, lermos um contrato ou ouvirmos um discurso de alguém com níveis de educação mais elevados, constatamos que as nossas diferenças linguísticas afinal até são bem escassas. Segundo, porque nós também temos telhados de vidro: em Portugal muito se diz "estivestes" e "muita bom", e muito se confunde o "esqueces-te com o esqueceste", o "gostava com o gostaria" e o "benvindo" com o "bem-vindo". E se eles misturam o tu com o você, hão de reparar que nós misturamos o vós com o vocês... Acho que muitas vezes criticamos o que eles dizem simplesmente porque é diferente, e sendo assim se calhar o problema passa por uma falta nossa de abertura de mente.

Na verdade, acho que o não ser igual evidencia acima de tudo diversidade e riqueza cultural. O português aqui falado deixou de ser puramente europeu, foi moldado pelas distâncias e pelo tempo, foi tropicalizado, influenciado e adocicado pelo quimbundo e pelo tupi, indo desvendando no seu jeito e no seu vocabulário uma História fascinante e bela.

As normas gramaticais existem, e devemos sim zelar pela difusão do seu conhecimento e pelo seu cumprimento. Mas só em devaneio podemos exigir que toda a gente as domine, tal como não podemos forçar alguém a ter vontade de as seguir. Nem tampouco é expectável que o português informal seja igual em todos os cantos do mundo onde ele é falado. Contudo, independentemente de como se fala coloquialmente, devemos preservar e solidificar a unidade do português formal, pois isso vai ajudar a fazer com que esta língua se mantenha uma só. E diante de uma necessidade de reconvergência ou de simples alteração, parece-me óbvio, dada a desproporcionalidade das dimensões, qual o lado que tem que ceder mais.

Quer queiramos quer não, o Brasil tornou-se o centro da língua portuguesa, enquanto que em Portugal existe apenas um número residual de falantes. E à medida que este vasto país vai diminuindo o desnível económico face às nações mais desenvolvidas, mais verdadeira essa verdade se torna. Não importa onde a língua nasceu, pois isso é passado, importa o que ela é hoje e o que será no futuro, e nós devemos ter a capacidade e o pragmatismo para reconhecê-lo e aceitá-lo. E, embora haja certamente muitos fatalistas lusitanos que se queixarão por sermos cada vez menores e por já nem a nossa própria língua controlarmos, pelo contrário, vejo com optimismo e entusiasmo o facto de fazermos parte duma comunidade linguística e cultural que se tornou muito maior do que nós e que continua crescer e a diversificar-se muito além das nossas fronteiras, pois isso embeleza-nos, alarga-nos os horizontes e cria-nos oportunidades.

Outros nós


São Paulo, 28 de Fevereiro de 2013


Vindo dos EUA, chegar ao Brasil suscita uma forte sensação de familiaridade. Senti-o mais do que uma vez, mais no Rio de Janeiro do que em São Paulo. São ruas e ruas com calçada portuguesa, a comida tão parecida com a nossa, em alguns casos igual. Ouvir a nossa língua, poder compreender tudo o que nos dizem sem grande esforço. Chegar a um novo país já conhecendo muito sobre ele. Aqui, desenvencilhamo-nos de uma forma muito natural, apanhamos rapidamente como as coisas funcionam, integramo-nos facilmente. E, numa altura em que muitas pessoas de vários países estão aqui imigradas, nota-se marcadamente que nenhum outro estrangeiro consegue entender e viver o Brasil como um português.
 
O idioma faz toda a diferença. Facilita a resolução dos problemas do dia-a-dia, possibilita as mais variadas interacções sociais e amizades, abre-nos portas profissionais, dá-nos informação e confiança pelo constante entendimento do que se fala em nosso redor.
 
Mas vai muito além da língua. Quando cheguei aos EUA, deparei-me com diferenças culturais muito expressivas. Os americanos têm uma forma de viver única, que, embora tenha bases ocidentais, rege-se muitas vezes por valores muito distintos dos nossos. No Brasil, as diferenças têm se revelado muito menores. Faz sentido, de outra forma não poderia ser: fomos parte do mesmo país durante mais de três séculos. É certo que a cultura se molda com o tempo, podendo mudar tão rapidamente quanto de uma geração para outra, muito mais com dois séculos de separação política e um Atlântico de distância. Mas há determinados traços que mostram ter perdurado, parece que estão de tal forma enraizados na sociedade que aguentaram praticamente inalterados décadas após décadas, preservados também com a ajuda das muitas vagas de imigração portuguesa que ocorreram ao longo dos tempos. E de facto muita coisa parece ter vindo directamente de Portugal: os valores da família, o espírito mais colectivista, os princípios católicos, o viver em casa dos pais até idade tardia, a hospitalidade, a miscigenação racial, o sentimento de simpatia por outros povos, a ideia de que lá fora tudo funciona melhor, a vivência do dia pelo dia, a cultura do almoço, a desorganização, a burocracia, a capacidade de contornar essa burocracia e de viver bem nessa desorganização, o jeitinho ou o desenrasca.
 
Mas não veio só daí para aqui, são inúmeros os traços que vieram daqui para aí, algo muito mais contemporâneo, permitido pelo surreal desenvolvimento das telecomunicações: TV, internet, facebook, whatsapp, e pela enorme facilidade em viajar, que proporcionam muito mais contactos entre os dois povos e levam a uma re-convergência cultural em muitos aspectos. Crescemos a ver as novelas deles, a ouvir todo o tipo de música deles, desde ao Funk das favelas ao Bossa Nova de Ipanema, vemos mais filmes deles do que nossos, usamos cada vez mais gíria brasileira, vamos enchendo as nossas praias com mini-biquinis e caipirinhas. Quantos não são os portugueses que têm um pouco de Brasil em si?
 
Tudo isto facilita a nossa interacção com este país e com este povo, tudo isto nos faz sentir mais próximos de casa aqui do que, por exemplo, nos EUA, na Alemanha ou na China... E proporciona-se um fenómeno singular: em nenhum outro país que morei ou visitei vi os portugueses tão bem integrados com a população local. Aqui vêem-se grupos de amigos constituídos por portugueses e brasileiros.
 
Temos uma visão do Brasil e um saber estar nele muito diferente de todos os outros estrangeiros. Pelo que sabemos e pelo que somos, temos a capacidade de experienciar o Brasil por inteiro. Verdade seja dita: não somos bem estrangeiros! Podemos gostar ou desgostar de várias coisas no Brasil, mas estrangeiros aqui não nos sentimos. Somos brasileiros em muitas vertentes, tal como eles são portugueses em muitas outras, separámo-nos politicamente, mas não somos independentes. E curioso, hoje que tanto se fala do europeísmo e de uma possível federação europeia, damos por nós a redescobrir que temos muito mais a ver com os brasileiros do que com a maioria dos povos europeus.

O lado de lá


Lisboa, 24 de Setembro de 2012
A palavra emigrar virou obsessão nacional. Ser hoje português implica viver cercado por inúmeros e contundentes apelos, quase imperativos, à emigração, numa ditadura que não permite segundas opiniões. Se antes era mau, hoje dizem que o país é horrível, sufocante e até miserável. Difundem-se retóricas depressivas de tal ordem que sugerem que se trata do pior país do mundo. A comunicação social, os familiares, os amigos apregoam repetitivamente sobre a desgraça que é viver em Portugal, sobre as virtudes da vida lá fora, ensinam os portugueses desde a sua mais tenra idade que o futuro só existe além fronteiras, que o sucesso é estrangeiro, que ficar é errar.
Mas lá fora para onde? - pergunta-se à partida. Para qualquer sítio, qualquer coisa é melhor que isto - respondem. Generalizações cegas, muitas vezes vindas de pessoas que nunca saíram daqui, repetem-se como se o mundo não fosse um imbróglio de problemas, como se a televisão não mostrasse fome, guerras, golpes de estado, favelas, crime, pessoas a viver com menos de 1 dólar por dia, como se Portugal não fosse um paraíso no meio disto tudo, onde há praia, clima agradável, segurança nas ruas, estabilidade política, rendimentos relativamente elevados quando comparados ao custo de vida. Difundem-se ideias transversais sobre o "lá fora" como se a crise fosse somente portuguesa, muitas vezes com o desaforo de quem não tem o hábito de ler uma única notícia internacional, omitindo que a taxa de desemprego anda elevada por quase todo o mundo, que a austeridade é um problema que se estende até muito além de Portugal.
Porque é que não emigra você? - pergunta-se em seguida. Chegou a hora das desculpas, do ameaçar e não agir, do aconselhar a ir para a esquerda enquanto se ruma para a direita. Pessoas, novamente aquelas que nunca saíram daqui, falam de emigrar sem qualquer mínimo de noção do que isso implica, sem que elas próprias tenham coragem para o fazer. Urgem que nos piremos com uma total ligeireza, desconhecendo o desafio que é chegar a um país novo, como se lá estivessem a oferecer empregos à saída do aeroporto, como se não houvesse a legítima possibilidade de inadaptação, como se não se sofresse com a distância da família, como se não houvesse xenofobia...
Abundam estórias de sucesso de portugueses nos vários cantos do mundo: salários milionários, ascensões rápidas nas carreiras. Muitos sentem maior satisfação por terem passado a trabalhar num mercado de maior dimensão, por estarem agora no centro mundial da sua profissão. E outros, devido às grandes mudanças que têm ocorrido na economia portuguesa simplesmente deixaram de ter emprego na sua área (os engenheiros civis por exemplo, perante a repentina e quase total paragem na construção de obras públicas) e, não querendo ou não conseguindo mudar de ofício, a palavra emigrar passou a significar poder trabalhar.
Contudo, omitem-se as estórias de insucesso, e pouco se fala dos problemas lá de fora. É preciso ir lá para ver. Nos EUA presenciei muitos despedimentos, e vi amigos com MBAs tirados em escolas de topo a passar por enormes dificuldades para encontrar trabalho, sendo que alguns estão ainda hoje desempregados, mais de um ano depois de terem finalizado o MBA. E quando estive em São Paulo conheci portugueses que foram para lá à procura de emprego, e alguns deles estavam próximos de desistir, ouvi relatos de uns que conseguiram emprego de menor qualidade do que o que tinham antes em Portugal, e outros que efectivamente desistiram de procurar e voltaram para casa. É no mínimo irónico pensar que alguns largaram um emprego em Portugal porque "não dava perspectivas" para ir atrás de uma esperança de emprego grandioso num outro país que acabou por não se materializar, tendo trocado algo por nada, tendo se deixado levar por um sonho utópico que a obsessão (doentia?) portuguesa lhes vendeu.
E mesmo nos casos de sucesso há muito exagero, só se relatam os êxitos, só os que lograram têm vontade de contar os seus feitos. E há também aqueles que pintam a sua realidade para convencer os outros (ou a si mesmos) de que estão melhor do que realmente estão. E há ainda quem diga estar emigrado por razões financeiras escondendo muitas vezes que a verdadeira razão é pessoal: casos amorosos mal resolvidos, problemas familiares, conflitos com o seu meio social, necessidade de afirmação; muitos partiram para começar uma vida do zero, sendo para tal necessário estar bem longe da vida anterior.
De facto, ao contrário do que se dita genericamente em Portugal, nem para toda a gente emigrar demonstra ser um boa solução profissional. No início deste ano, Frei Sales Diniz, Director da Obra Católica das Migrações, abordou este tema do insucesso na emigração, referindo-se em particular às pessoas com mais dificuldades: "Muitos portugueses, em vários países da Europa, estão a viver em situações dramáticas, sem meios de sobrevivência, a viver na rua, sem trabalho e muitos deles sem meios para voltar a Portugal, e também existem muitos que não querem voltar a Portugal por uma certa vergonha de regressarem na situação miserável em que se encontram." E, recentemente, uma reportagem da RTP também mostrava isso: relatava inúmeros casos de portugueses que vão para o Reino Unido à procura de emprego e acabam a dormir nas ruas... No entanto, pelo que conheço de nós mesmos, haverá muitos por cá que dirão que essas pessoas estão certamente melhor lá do que estariam cá, como se aqui não tivessem mais hipóteses de ter um familiar ou amigo para os apoiar, como se as ruas do Reino Unido não fossem mais frias do que as nossas...
Para muitos compensará arriscar e correr atrás da possibilidade de se tornarem uma daquelas estórias de sucesso, de melhorarem a sua qualidade de vida, de vingarem no centro global da sua especialidade. Outros partem daqui já com contratos chorudos, e para esses valerá certamente a pena, quer dizer, pelo menos do ponto de vista financeiro... Pode também haver o desejo de se ser internacional em detrimento de se ser nacional. E muitas vezes também faz sentido ir mesmo que o destino seja fracassar, porque assim se aprende muito: tentar, cair e ter que levantar faz-nos amadurecer, ou endurecer... E, na verdade, há que partir se a razão se prender simplesmente com uma ânsia por conhecer o mundo, acreditar que ter uma experiência internacional será importante para a própria formação tal como é tirar um curso ou um mestrado. Viver fora do próprio país é muitíssimo enriquecedor, conhecer outros mundos alarga o nosso mundo. Quanto a mim, que estou novamente de partida, julgo ser o resultado de uma mistura de alguns destes motivos. E volto a ir, mas deixo o alerta: tenham cuidado aqueles que partem certos de que lá fora encontrarão a salvação.

Pela América

Nova Orleães, 17 de Março de 2012
Viajar pelos EUA é algo contraditório. Começando logo pelo facto de que poucos por aqui viajam. Nova Iorque, Las Vegas, Califórnia estão cheios de turistas, mas não é disso que falo. Falo em ir a Atlanta e quase não ver estrangeiros, falo em atravessar o Alabama de comboio e não ver um único mochileiro. Conhecer os EUA não é algo que atraia aquele tipo de viajantes que se satisfaz a entrar por países adentro à sua descoberta. Esses preferem outros destinos, os exóticos, aventurosos, remotos ou antigos Sudeste Asiático, América do Sul, Austrália e Europa; pouca gente tem uma insaciável curiosidade em conhecer o verdadeiro Estados Unidos da América. Não critico, é muito mais giro voltar de uma viagem com histórias para contar do Cambodja, do Peru, da Colômbia ou da Eslovénia do que do Arkansas ou do Tenessi. Além de que, se vamos gastar tanto dinheiro numa viagem, porquê fazê-lo num país tido como culturalmente todo igual, sem História e cheio de edifícios novos monumentizados? No entanto, a verdade não é bem essa. Pôr o pé em distintos lugares dos EUA rapidamente se torna num processo de desmantelamento de preconceitos.

Os EUA estão longe de ser a uniformidade cultural que muitos acreditam ser. Não estou a argumentar que este país tem uma diversidade do nível da europeia, porque não tem: aqui há jornais, canais de televisão e uma língua comuns. O que estou a dizer é que isto não é o bloco cultural unitário simples assente em hamburguers, diners e cheerleaders que muitos imaginam. A cada ponto dos EUA que se conhece revela-se uma subcultura diferente, evidenciam-se abismais diferenças nas formas de estar, nos sotaques, nas comidas, nas religiões, nos níveis de riqueza (ou de pobreza) e até nas composições étnicas das populações. O estilo de vida de praia californiano é totalmente distinto da selva urbana nova-iorquina onde "time is money", tal como é do ambiente calmo e universitário de Boston ou da vida em torno do governo central de Washington D.C. ou ainda do ruralismo do Sul onde só os ansiosos tem pressa. Quanto à comida, em Nova Iorque comem-se bagels, em Maine lagostas e em Luisiana ostras, camarões e crocodilos. O país é altamente religioso, mas a religiosidade é expressa nas mais diversas formas e com fortes variações de região para região: em New York, ou em Jew York como alguns lhe chamam, habita a segunda maior comunidade judaica do mundo depois de Israel, em Utah cerca de 60% da população é Mórmon - religião que na larga maioria dos outros estados é uma excentricidade, os Católicos constituem 40% da população de Nova Jersey mas apenas 5% da população do Arkansas, no Alabama mais de 80% são protestantes. Em níveis de desenvolvimento também há diferenças, tendo o Distrito de Colúmbia um PIB per capita três e cinco vezes superior ao do Wyoming e ao do Mississípi, respectivamente. Quanto a grupos étnicos, ainda que a maioria seja branca, o Sul é bem negro, o Alasca vermelho e o Havaí amarelo.

E dizer que os EUA não têm História é um total exagero; a História deles é curta mas rica. Visitar Atlanta é descobrir uma cidade que foi totalmente queimada pelas tropas da União durante a guerra civil e que foi posteriormente reconstruída a partir das cinzas, é também conhecer a terra-natal de Martin Luther King e aquilo que foi um centro de luta dos negros pelo direito à igualdade; ir a Boston é ir onde começou o movimento Tea Party e a Revolução Norte-Americana e onde nasceram duas das mais conceituadas universidades do mundo; ir a Washington D.C. é ser aculturado pelos ideais dos Founding Fathers e visitar a uma cidade que foi invadida e semi-destruída por ingleses sedentos por recuperar o controlo da ex-colónia, ir à Califórnia é conhecer um Estado que fazia parte do México e que foi conquistado pelos norte-americanos por via da guerra, ir a Nova Orleães é ir à procura das origens do Jazz, ler sobre os barcos carregados de algodão que desciam o Mississípi e sentir reminiscências do apartheid que se viveu nos estados do sul.

E no que toca a cultura, nós criticamo-los por tão básicos e pouco genuínos que são, mas somos nós que temos apenas um desporto nacional e que nem sequer é nosso, enquanto que eles têm quatro: o football americano, o hoquéi no gelo, o baseball e o basketball; nós temos o Fado, e eles têm o Country, o Jazz e o Blues; eles têm o "God Bless America", o "Land of the Free" e a convicção cega de que este é a "The Greatest Nation on Earth" enquanto que nós, embora outrora já tenhamos tido algo semelhante, escolhemos já não ter nada disso; até os edifícios novos monumentizados têm muito mais do que o 'nada' que muitos lhe atribuiem, eles são símbolos da prosperidade e do sucesso que é manter estes estados unidos, reforçando a União ao criar elementos de dimensão nacional. Não, não estou a dizer que a cultura deles é mais interessante do que a nossa, porque não acho que seja; o que digo é que isto vai muitíssimo além do vazio que muitos ignorantemente assumem que é.

Viajar pelos EUA  é um processo quase contínuo de confirmação e negação de preconceitos, não tivemos nós passado as nossas vidas embebedados por uma massiva mas parcial exportação cultural norte-americana, é conversar com a pessoa do lado e perceber que eles de facto raramente ou nunca saem do país mas viajam muito cá dentro, é ficar fascinado com a ascendência dos mais variados países que este povo tem, é tentar perceber como o que poderia ter se tornado num conjunto de países distintos se tornou afinal num só, é chegar ao bar e ter que escolher por uma das oito cervejas de pressão disponíveis, é ir para Nova Orleães saltar de bar em bar a curtir o Jazz e o Blues. Viajar pelos EUA bem que pode ser pouco exótico, mas de desinteressante não tem nada.

"I'm Portuguese." "From Brazil?"

Nova Iorque, 16 de Janeiro de 2012

"No... From Portugal." A reacção a esta minha resposta é frequentemente a mesma: um olhar confuso, de quem acha que os portugueses são habitantes do Brasil e de quem não sabe o que é Portugal, e uma expressão de desilusão, por eu afinal não ser daquele país maravilhoso que é o Brasil. No MBA, havia colegas meus que ao fim de mais de um ano ainda me confundiam com brasileiro, isto após de eu os ter corrigido duas a três vezes. É exactamente como um amigo meu norte-americano disse (meio) na brincadeira: "se não fosse o Cristiano Ronaldo ninguém saberia que Portugal é um país".
 
Tenho dificuldade em perceber este desconhecimento sobre Portugal. Se calhar é por eu ser português, e poderei portanto achar que Portugal foi mais do que aquilo que realmente foi. Mas mesmo com um esforço de racionalização, parece-me excessivo o total desconhecimento sobre o país que teve o mais duradouro império global da História, país onde nasceu o quinto idioma mais falado do mundo, e que esteve na vanguarda das ligações Américas-Europa-Oriente.
 
Nem é que nos EUA a marca Portugal seja fraca, ela é inexistente. E é curioso que no extremo oposto está um país que tem muito de Portugal: a marca Brasil nos EUA é fortíssima. Quase todos os norte-americanos são deslumbrados com o Brasil e com a cultura brasileira. Muitas vezes nem conhecem, nunca foram ao Brasil nem nunca conviveram com brasileiros, mas adoram, há um fascínio preconceituoso pelo Brasil no imaginário norte-americano. Apesar do Brasil ser um país com elevados níveis de criminalidade e de corrupção, o que prevalece é sempre e somente a imagem de um povo alegre, amigável e simpático, onde a vida roda toda em torno da festa, da praia, das mulheres bonitas e dos biquínis fio-dental. Aliás, quando eu falo da possibilidade de ir trabalhar para São Paulo, os norte-americanos comentam imediatamente a minha sorte em ir morar para perto da praia, nem se apercebendo que Nova Iorque fica bem mais perto da praia do que São Paulo.
 
Acho que o facto do Brasil ser um país extenso geograficamente, populoso, com uma cultura única e com uma forte indústria musical leva à propagação natural da marca Brasil. Mas há coisas que foram fabricadas. Na internet encontram-se várias referências a como, no âmbito da "Política da Boa Vizinhança" da década de 1940, que visava essencialmente a aproximação da cultura dos EUA à da América Latina pela defesa de interesses políticos e económicos, o governo de Franklin D. Roosevelt contratou a Walt Disney para a produção de entretenimento de conteúdo propagandístico. Neste contexto surgiu a "Aquarela do Brasil", onde o Zé Carioca apresenta o Brasil e o ser-se brasileiro ao norte-americano Pato Donald, mostrando-lhe um país exuberante, cheio de música, com gente amável, receptiva e muito alegre, e com uma cultura mágica, exótica e contagiosa que até conseguiu pôr o frequentemente irritado Pato Donald a dançar o samba. O sucesso deste filme combinado com o antecessor sucesso nos EUA da cantora (portuguesa) Carmen Miranda - que também é referida como sendo parte de uma estratégia propagandística - moldaram as ideias dos norte-americanos sobre o Brasil.
 
Em nada do que li vi alguém estabelecer relações entre estas estratégias de marketing de há cerca de 60 anos atrás com a visão generalizada que os norte-americanos tem hoje do Brasil e dos brasileiros. Mas a verdade é que esta visão bate certinha com as características do Zé Carioca. E até há esforços que levaram à construção de uma marca Brasil mais antigos que isso e que continuam a ser visíveis nos dias de hoje. Segundo o livro Brazil - Five Centuries of Change de Thomas E. Skidmore, foi no tempo da ditadura de Gétulio Vargas, há mais de 70 anos atrás, com o apoio de um investimento governamental em eventos e publicidade, que se consolidou o futebol e o samba como símbolos da identidade nacional brasileira, sendo que hoje continuam a sê-lo. E, agora, pergunto intrigado: Será que o recente filme "Rio" terá nascido numa lógica semelhante à da "Aquarela do Brasil"?
 
E todos nós sabemos que o sucesso da marca brasileira vai além fronteiras norte-americanas. Basta recordarmos quantos foram os portugueses que durante viagens ou Erasmus já se fizeram passar por brasileiros com objectivo de se tornarem mais apelativos aos olhos de uma miúda estrangeira - e a verdade é que resulta!...
 
Mas as vantagens de ter uma boa marca nacional vão muito além de aumentar as nossas probabilidades de sucesso na sedução do sexo oposto - não que isso não seja importante... Ter uma marca Portugal forte significaria uma maior capacidade para atrair investimento para o nosso país, para atrair turismo, para exportar os nossos produtos e para melhorar a imagem que um recrutador tem de nós quando nos candidatamos a um emprego ou a um mestrado no estrangeiro.
 
Por isso pergunto: para quando um investimento a sério na marca Portugal?

Porque não falar?

Nova Iorque, 31 de Dezembro de 2011

Há uma sensação constante de que podemos falar com (quase!) quem quisermos nesta cidade: com o vizinho, com alguém que passa na rua, com a pessoa que trabalha ao balcão, com o passageiro no metro, com o espectador no concerto, com a miúda que está no café sentada na mesa do lado... Facilmente desconhecidos imergem em conversas quotidianas como se esta metrópole de um pequeno bairro se tratasse.
 
Começa-se tipicamente pelo simples prazer da conversa. "You have an accent, don't you?...
Where are you from?" ou "I see you pretty often. Do you live around here?" E por vezes encontram-se coisas em comum. Ambos trabalham no mesmo ramo e trocam-se cartões. Ambos procuram um novo apartamento e trocam-se experiências sobre o processo de busca. Um procura emprego e o outro conhece quem procure empregar, "send me your resume". Uma pessoa interessa-se por algo que um desconhecido tem: "Is that the new iPad? How do you like it? I'm thinking of buying one myself..." e trocam-se opiniões sobre o produto.
Um está a tirar um MBA, o outro quer tirar um MBA, pergunta-se, responde-se, trocam-se ideias. É certo que a maioria destas conversas nunca passará de uma conversa entre desconhecidos, mas é impressionante o que se pode aprender assim, as oportunidades que podem surgir assim.
 
Em Lisboa é exactamente o contrário. Se eu quiser falar com a pessoa ao meu lado no café, é-me difícil, a minha vontade é imediatamente obstruída por uma barreira cultural que se exibe como intransponível. Não faz sentido virar-me e perguntar: "Isso é o novo blackberry? Que giro! E está contente com a compra?" Nem muito menos questionar: "O que é que você faz da vida?" Se para nós conversar com um desconhecido já não é muito normal, falar sobre as respectivas situações laborais ou sobre os objectivos pessoais constitui um enorme desvio à norma. Até falar com uma miúda desconhecida é-nos mais difícil: "Mas eu conheço-te de algum lado?!" respondem elas frequentemente a abordagens menos elaboradas.
 
Mas porque será? Porque é que não nos é fácil estabelecer conversas com alguém que não conhecemos? Achar-nos-emos mais importantes do que aquela pessoa que está a almoçar mesmo ao nosso lado? Ou do que aquele indivíduo com quem compartilhamos o trajecto de autocarro? Acharemos que não temos nada para aprender? Será arrogância? Insegurança? Desconfiança acerca das intenções de quem nos aborda? Ou, será por outro lado, simplesmente e ironicamente, a nossa forma de estar menos individualista, mais voltada para as relações, que nos faz focar apenas nas pessoas que temos e ignorar as demais?
 
Àqueles a que a resposta passa pelo mau carácter, que continuem a prestar esse seu serviço silencioso à comunidade. Aos remanescentes, pergunto: porque não experimentar? A perder, exceptuando um olhar mais surpreso ou uma ausência de resposta, sinceramente não adivinho nada. A ganhar, o agradável ambiente de bairro ou de pequena cidade coabitado com as vantagens de se viver num grande centro populacional. E, quem sabe, potenciais novas ideias e oportunidades.

A Terra das Oportunidades?

Nova Iorque, 22 de Novembro de 2011

Entre 1892 e 1954, 12 milhões de imigrantes passaram pela ilha de Ellis, um pequeno pedaço de terra imediatamente a sul da ilha de Manhattan que foi durante aquele período o principal posto federal norte-americano de controle de imigração. Atraídas pelo favorável contexto económico, e muitas vezes fugindo da fome, das Guerras e de perseguições religiosas, inúmeras famílias de vários cantos da Europa chegaram aos EUA em busca de um sonho; um sonho de liberdade e de melhores condições de vida. Apesar do criterioso e demorado processo de controle, a maioria dos recém-chegados foi recebida de braços bem abertos pelo governo dos EUA, sendo que apenas cerca de 2% das pessoas foram recambiadas, e essencialmente devido ao diagnóstico de doenças contagiosas. Os EUA viviam nessa altura uma fase marcante do processo de formação da sua identidade, uma nação que representou a salvação para milhões de estrangeiros que sentiram necessidade de fugir dos seus próprios países e que ao mesmo tempo se sustentou nesse influxo de pessoas para crescer do ponto de vista económico e populacional. Nessa altura, os EUA assumiam-se mais do que nunca como um país de imigrantes. Nessa altura... porque muita coisa parece ter mudado desde então...
 
O sentimento era generalizado entre os estudantes internacionais no meu MBA, um misto de surpresa e indignação por não termos as mesmas oportunidades de emprego que os norte-americanos tinham. Havia logo à partida um obstáculo cultural; a forma de ser muito própria dos norte-americanos concedia-nos uma forte desvantagem pela maior dificuldade na interacção durante os processos de recrutamento. Contudo, embora este obstáculo nos suscitasse muitas conversas críticas, não gerava queixas legítimas: quem decidiu ir estudar e procurar emprego num país tão diferente fomos nós, nós é que queríamos ser imigrantes, e portanto nós é que tínhamos de nos tornar mais norte-americanos, não eram os norte-americanos que tinham de nos aceitar como nós éramos. No entanto; certos obstáculos eram imunes a qualquer esforço de adaptação. Abrindo o website de emprego da faculdade, era desoladora a proporção de ofertas de emprego que tinham como requisito obrigatório já possuir autorização legal para trabalhar nos EUA. Eram poucos os empregadores que mostravam interesse em contratar alunos estrangeiros, poucos estavam dispostos a incorrer a custos e a envolver-se em burocracias para patrocinar uma candidatura a um visto de trabalho. Era tipo um Catch 22: para conseguir emprego era preciso ter visto de trabalho, para conseguir visto de trabalho era preciso ter emprego. Este obstáculo sim, gerava indignação, perplexidade em presenciar uma filosofia de American Jobs for American People em pleno século XXI.
 
As promessas de Barack Obama, de por um lado punir o incumprimento da lei por parte de quem passa ilegalmente a fronteira, mas também por outro lado de facilitar a concessão de vistos de trabalho, têm sido cumpridas apenas de forma parcial. Segundo um recente discurso do próprio Presidente realizado na cidade fronteiriça de El Paso, o policiamento das fronteiras com o México está mais rígido do que nunca, sendo que o número de agentes dedicados a esta função duplicou desde 2004. Um artigo da Reuters confirma estes esforços governamentais, relatando que durante o ainda incompleto actual mandato presidencial já foram deportados mais de um milhão de imigrantes ilegais, número que compara com um milhão e meio de deportados durante dois mandatos inteiros de George W. Bush. De facto, a primeira parte da promessa parece estar a ser cumprida. Quanto à segunda parte é que a estória parece ser outra. Na verdade, a culpa não pode ser atribuída de forma simplista a Obama; o Presidente teceu vários discursos de apoio ao DREAM Act, uma proposta que visava a legalização de imigrantes ilegais sob determinadas condições. Porém, o Senado rejeitou-a, para muita infelicidade dos mais de 11 milhões de imigrantes ilegais a viver no país. E em relação aos estudantes estrangeiros, também nada parece estar a ser feito com o intuito de mitigar os obstáculos burocráticos que aqueles jovens enfrentam aquando das suas tentativas, na sua maioria falhadas, para ficarem nos EUA após conclusão dos seus estudos. Esta situação persiste, mesmo apesar das críticas de vários políticos (de mente mais aberta) ao actual sistema que forma jovens estrangeiros nas universidades norte-americanas para depois mandá-los de volta para os seus países, incongruência que o Mayor nova-iorquino Michael Bloomberg chegou mesmo a denominar de "suicídio nacional".
 
A identidade dos EUA está em transformação, gradual, com o fechar de portas a vários daqueles estrangeiros que também gostariam de fazer parte do sonho americano; um processo irónico em que os descendentes dos imigrantes de ontem não sentem qualquer problema em recusar os imigrantes de hoje; a memória é curta... E aquela beleza inerente à construção de uma nação baseada no sonho de milhões de imigrantes das mais diversas origens vai parecendo ser, cada vez mais, uma coisa do passado.

O Senhor é branco ou latino?

Nova Iorque, 29 de Setembro de 2011

Batem à porta. "Boa tarde. Recebemos o seu census incompleto, faltou-lhe nomeadamente preencher a parte da raça ou etnia. O Senhor é branco, latino, negro, asiático, americano nativo, nativo do Alasca ou outro?"
 
Mas que obsessão com a raça é esta? Liga-se a televisão e os programas de comédia passam horas em piadas sobre estereótipos raciais, há comediantes que fazem carreiras de sucesso baseadas quase exclusivamente em temas de conteúdo racial; os noticiários não se calam com categorizações por raça ou por origem, com o Presidente que é negro, com o impacto que determinada decisão do Mayor tem no seio da comunidade hispânica ou da comunidade judaica, com o não sei quem que é latino. Na minha faculdade havia associações de estudantes negros, latinos, judeus e asiáticos, só não havia associações de estudantes brancos (porque isso seria racismo...). E havia também eventos de recrutamento para empresas destinados exclusivamente para negros, latinos e outras "minorias". As referências a raças sucedem-se nos meios de comunicação, a discriminação "positiva" imposta pelas instituições, ou diria imposta pela pressão das "minorias", está espalhada pela sociedade, havendo facilidades de acesso a faculdades, a bolsas de estudo e a empregos para pessoas de determinadas raças, especialmente para negros e latinos.

Para um português isto tudo é desconfortável, até meio agressivo, porque para nós isto tudo é racismo. Nós encaramos as diferenças raciais de forma diferente: publicamente calamo-nos, porque falar de diferenças seria como que dizer que não somos iguais. Nós só abordamos o tema da raça quando é de facto necessário fazê-lo para explicar uma determinada situação. Em Portugal, as referências a raça em voz alta são raras, tais como são raras as piadas raciais na televisão, e tais como são raras as notícias sobre temas raciais. E não nos passa pela cabeça definir institucionalmente facilidades de acesso a faculdades ou a empregos para um determinado tipo de pessoas só porque estas pessoas têm uma determinada cor de pele. Para nós isso seria injusto, seria racismo.
 
"Olhe... eu não sei qual é a minha raça, sempre achei que era latino mas também sempre achei que era branco... Escreva a senhora o que achar que eu sou." "Não! Quem tem que dizer a sua raça é o senhor." E a obsessão é tanta que chega a tocar no ridículo: isto é um bocado à base da auto-identificação. Para dizer a verdade, eu estava só a ser chato. Eu já sabia perfeitamente que, de acordo com a definição norte-americana de latino, eu não sou latino, pois aqui esta palavra refere-se não a pessoas de qualquer país de língua latina mas a pessoas de qualquer país americano de língua latina. Contudo, bastava eu ter uma qualquer ascendência longínqua num país da América Latina para poder me auto-identificar como latino. Chega a haver pessoas brancas, abastadas e culturalmente muito norte-americanizadas que só porque são netas de um sul-americano têm direito a facilidades no acesso a faculdades e a empregos. E no caso dos negros a história também é muito flexível. Aqui o conceito de mulato não existe. Segundo a descrição que está no website do census norte-americano, uma pessoa de raça negra é qualquer pessoa que tenha na sua ascendência alguém de etnia africana, não se referindo a nenhuma quantidade mínima de ascendentes negros. Uma pessoa que seja três quartos branca e um quarto negra é considerada negra, ainda que essa pessoa seja mais branca do que negra. O Obama é negro, a Condoleezza Rice é negra, o Colin Powell é negro e a Mariza se fosse norte-americana também seria negra, ainda que todas estas pessoas sejam mulatas e algumas delas quase brancas. E não ser exactamente branco é quanto basta para se ter a vida facilitada no processo de candidatura a faculdades e a empregos.

Quando confrontados sobre a justiça disto tudo, os norte-americanos frequentemente invocam o passado altamente discriminador contra não-brancos e em particular contra pessoas de raça negra. E de facto, basta sair à rua e olhar à volta para perceber que as coisas aqui deverão ter sido ainda mais duras do que noutros sítios. Comparando por exemplo com o Brasil, país que tal como os EUA foi populado essencialmente por imigrantes europeus e por um grande influxo de escravos negros, verifica-se aqui uma grande diferença. Enquanto que no Brasil o que se vê mais são mulatos, uns mais negros e outros mais brancos mas mulatos, aqui quase não se vêem mulatos, aqui há brancos e há negros. Julgo que é esta forte discriminação de uns para um lado e outros para outro que leva a este sentimento de revolta contra a condição económica mais elevada das pessoas de raça branca e que leva as pessoas de raça negra a terem capacidade de exigir mecanismos institucionais que os compensem pelo facto de serem descendentes de escravos, na medida em que esta condição está associada à enorme desvantagem hereditária que é crescer em seios familiares desfavorecidos e de níveis de educação muito baixos.
 
Não me passa pela cabeça discordar desta ideia de instituir formas de favorecer quem nasceu desfavorecido. Uma pessoa que cresce num ambiente pobre, num subúrbio manhoso, que tem como referência pessoas que não deveriam ser referência para ninguém ou que frequenta high schools mal-frequentados não terá as mesmas oportunidades que terá uma pessoa que nasce num bairro rico. Dar a estas pessoas a oportunidade que nunca tiveram é uma questão de justiça social. E na verdade, até é mais do que isso: às vezes basta uma oportunidade concedida à pessoa certa no momento certo para fazer a diferença entre ter mais um marginal na rua ou ter mais um membro a acrescentar valor à sociedade. Sou a favor da democratização das oportunidades, e de redireccioná-las para quem nunca as teve. Mas fazê-lo com critérios de raça ou de origem, não! Compreendo que em média pessoas de determinadas raças nascem em ambientes mais desfavorecidos do que pessoas de outras raças. Contudo, nem todas as pessoas estão na média. Há latinos, tal como há negros, que nascem com condições sócio-económicas muito favoráveis. Não faria mais sentido direccionar a concessão extraordinária de oportunidades às pessoas de classes sociais mais baixas, sejam elas negras, amarelas, castanhas ou brancas? O critério de estrato social é uma solução que atacaria de forma mais directa o problema da desigualdade de acesso a oportunidades. E além disso, adoptar um critério desligado de raças mitigaria a constante invocação de temas de conteúdo racial, parando de alimentar este traço cultural norte-americano em que as pessoas são metidas em cestos, como se cada pessoa carecesse de uma personalidade própria e individual.

A essa pergunta, a resposta é óbvia.

Nova Iorque, 6 de Setembro de 2011

É difícil imaginar, sem ter aqui vivido, quão diferentes são os EUA e a Europa. De facto, antes de vir para Nova Iorque via os EUA, talvez por serem também um país ocidental, como não muito diferentes. É óbvio que sempre soube, por ter lido e ouvido, que os EUA são mais capitalistas, que as pessoas são mais movidas a dinheiro, que há um maior peso da iniciativa privada e um menor peso do estado, que os trabalhadores podem ser despedidos a qualquer momento sem que haja uma causa, não havendo lugar para essa coisa do ser-se efectivo. Mas é difícil perceber, sem ter aqui vivido, o impacto que tudo isto tem na cultura de um povo, na forma como as pessoas interagem, e até na forma como as pessoas regem as suas vidas.

Mal comecei o MBA, ainda nem as aulas tinham começado, ainda numa fase chamada pre-term, tipo aquecimento, já nos falavam e falavam sobre como conseguir encontrar emprego; isto numa altura em que ainda tínhamos os 2 anos de estudo pela frente. Sentados num pequeno anfiteatro, ouvíamos explicações dos alunos do segundo ano sobre o que tínhamos de fazer para encontrar estágio de verão, sobre a importância que o estágio de verão tinha no processo de conseguir emprego depois do MBA, e sobre as milhentas coisas que íamos ter que fazer na nossa pesquisa sobre as possíveis carreiras que poderíamos escolher e sobre as possíveis empresas onde poderíamos vir a ter interesse em trabalhar. Em boa verdade, tanto quanto sei, esta preocupação prematura com o emprego pós-MBA também existe nos MBAs fora dos EUA. O meu ponto não é esse. O meu ponto é que para mim e para os meus colegas europeus isto foi uma novidade e até uma surpresa, enquanto que para os meus colegas norte-americanos, isto foi, para a sua grande maioria, um simples repetir de tarefas.

O meu amigo Vivek conta que durante a sua licenciatura, passou uma parte muito significativa do seu tempo a pesquisar e a aprender sobre os vários empregos que ele considerava poder vir a ter depois do curso. Tal como durante o MBA, ele passou muito tempo do seu undergrad a ler sobre vários sectores, a ler sobre várias funções, a ler sobre várias empresas e a inquirir amigos e ex-alunos da sua faculdade que tinham escolhido a carreira que ele poderia vir a escolher. Todo este esforço, de muitas dezenas de horas de pesquisa e muito à base do estabelecimento de relacionamentos, para tentar perceber com um grande nível de pormenor as oportunidades de crescimento profissional nessa função e nessa empresa, para tentar perceber como seria a progressão salarial, como seria o dia-a-dia no local de trabalho, como seria o processo de aprendizagem, quais seriam as maiores dificuldades na fase de adaptação durante os primeiros meses de trabalho. Ou seja, isto tudo para ficar a conhecer com o maior nível de detalhe possível como seria o seu futuro em cada um caminhos que ele pudesse vir a escolher para a sua vida.

Haverá com certeza várias razões culturais que levam os norte-americanos a fazer tudo isto, nem que seja o simples facto de que as próprias empresas quando avaliam candidatos querem saber que esforços foram feitos para conhecer a empresa e a função. Contudo, há uma razão institucional por detrás destes traços culturais: o ensino universitário é muitíssimo caro. A título de exemplo, a licenciatura de 4 anos na NYU Stern School of Business custa 180.000 dólares. Sim, vocês leram bem! Uma licenciatura numa faculdade bem reputada custa 45.000 dólares por ano. E a isto ainda acrescem os custos de vida; ou seja, estamos a falar de uns 250.000 dólares em despesas por 4 anos de estudo. Os futuros alunos universitários com 18 ou 19 anos de idade chegam ao banco e pedem, muito corajosamente, um belo de um gigantesco student loan. E é óbvio que quem tem uma dívida de 250.000USD para pagar vai encarar a busca de emprego a sério. Todos os alunos querem um emprego promissor que lhes permita pagar a dívida o mais rapidamente possível. Todos querem escolher o emprego certo, foi para isso que eles desembolsaram a crédito esta monstruosa quantia de dinheiro, foi para encontrar o emprego que é o right fit para eles e para encontrar o emprego que compense o preço que foi pago pelo curso. E se não encontrar o emprego certo depois do curso já é mau, ficar desempregado é a ultimate tragedy. Imaginem-se vocês recém-licenciados, sem emprego e com um saldo negativo de 250.000USD na conta... Ninguém quer arriscar ficar desempregado, todos querem encontrar emprego, custe o que custar. E, pela mesma lógica, o processo de avaliação de qual curso tirar e onde tirar também é feito com enorme seriedade e cuidado.

A desvantagem do ensino universitário privado (ou público com preços de privado), segundo os economistas mais à esquerda, e segundo os jovens europeus que se manifestam e se revoltam contra cada pequeno aumento de propinas, é que o acesso ao ensino fica limitado aos jovens de famílias de maiores posses. Mas não! Qualquer pessoa pode pedir um empréstimo para poder ir estudar. O acesso ao ensino fica de facto limitado, mas fica limitado às pessoas que realmente querem tirar um curso e às pessoas que realmente acreditam que o curso vai lhes abrir portas profissionais. Na verdade, e muito curiosamente, até os filhos de pais ricos se endividam para ir estudar. Segundo uma notícia que saiu no site da bloomberg intitulada de “Affluent Parents won’t give kids a free college ride”, os pais com possibilidades geralmente suportam apenas parte das despesas universitárias, e com um simples objectivo: obrigar os filhos a assumir responsabilidades financeiras e encarar o curso e o processo de busca de emprego com seriedade.

Actualmente, em tempos de crise de finanças públicas e de competitividade no nosso país (e não só), muito se fala da necessidade de pôr fim a um sistema económico descrito por muitos como antiquadamente pouco liberal e gerador de parasitas, com a possível privatização do ensino a ser frequentemente colocada na mesa do debate por economistas de direita; e, como sempre, havendo opiniões divergentes sobre as vantagens e desvantagens económicas. Contudo, para mim, a questão que se deve colocar não é económica, simplesmente porque a questão económica parece-me de resposta óbvia. Aqui, as pessoas são obrigadas a desenvolver uma responsabilidade financeira, uma maturidade, uma menor aversão ao risco e um foco na profissão muito mais cedo do que nós. Garanto-vos que se vocês vierem aos Estados Unidos, salvo excepções que sempre as há, vocês não irão encontrar jovens a tirar cursos que são mais que sabidos não terem saída, não irão encontrar pessoas a tirar um curso qualquer com o objectivo primordial de se tornarem “Doutores” ainda que isso em nada os ajude a encontrar emprego, não irão encontrar jovens no último ano do curso sem qualquer ideia do que poderão ser as suas carreiras, e não irão de certeza encontrar marmanjos com quase 30 anos ainda a tocar cavaquinho numa tuna de Coimbra.

Mas a problemática não é só a do (sub)desenvolvimento das responsabilidades pessoais. A problemática é também a do mal que faz aos outros. Sem nem falar da cultura irresponsável colectiva que se propaga contagiosamente, estamos claramente perante um problema de parasitismo. Uma pessoa que fica 8 anos em vez de 4 a tirar um curso numa universidade pública está covardemente a exigir o dobro do esforço aos senhores contribuintes que lhe pagam a faculdade com o rombo brutal que levam no salário todos os meses. Mas ainda há outro problema: se é certo e sabido que não há emprego para todos os jovens que estão a tirar curso de psicologia, porque é que nós, como sociedade, haveremos de viver nesta falácia, onde jovens se preparam para funções inexistentes? Portanto, a questão que se deve colocar é outra. E há de facto uma questão. Mas a questão é cultural. Uma mudança tão radical do sistema com tais impactos significativos na fase jovem das vidas das pessoas molda drasticamente as suas maneiras de ser (basta olhar à minha volta para realizar isso). Como tal, o que temos de nos perguntar é se queremos mudar as nossas vidas, se queremos mudar a idade em que os jovens começam a assumir responsabilidades maiores, se queremos criar uma cultura de endividamento pessoal que obriga as pessoas a esforçarem-se mais porque têm que pagar o que devem, se queremos criar uma cultura mais focada no trabalho, uma cultura mais movida a dinheiro, mais individualista e mais orientada para o sucesso profissional; o que temos de nos perguntar é se queremos mudar a nossa forma de pensar e de viver.

Os Novos Emigrantes Portugueses

Nova Iorque, 2 de Julho de 2011

Pego no telemóvel, abro o chat e escrevo ao Vasco: "Vou morar para São Paulo. Daqui a uns 6 meses estou aí." "Boa! Cá te espero." responde ele. "Olga, como é que andas?" "Estou óptima! Estou agora a entrar no avião para Maputo." "Lourenço Marques!..." corrijo eu na brincadeira. “Olha, afinal já não vou aí passar uns dias.” digo à Inês de Londres. "A minha roommate está cheia de febre. E estou farta destes franceses que me discriminam só porque não falo correctamente a língua deles." escreve-me a Joana de Paris. "Quando é que voltas?" pergunta a Filipa, "retornada" de Barcelona. "Epah, afinal não volto. Vou ficar por aqui mais uns 6 meses e depois arranco para São Paulo." respondo eu. "Miguel, vou ser Mãe!" escreve-me a Maria de Madrid. "Falconi, como é que tu fizeste com o visto de trabalho quando estagiaste no ano passado no Rio de Janeiro? É que eu vou para São Paulo fazer o meu estágio." pergunta-me a Rita de Singapura. "Isto por aqui não anda nada fácil." diz-me o Diogo, "retornado" de Londres. "João, por onde é que andas agora?" "Estou em Lisboa, vim há umas semanas de um projecto em Singapura, e estou prestes a arrancar para um projecto em Moscovo." "Vais estar em Nova Iorque no final de Julho? Vou aí de férias." escreve-me a Adriana do Rio de Janeiro. "Vou fazer um projecto de 10 meses em Nice, em França." diz-me o meu primo, seguindo os passos do seu irmão que trabalha já há alguns anos em Toulouse. "Compras-me um iPad aí nos States? É que aí é bem mais barato." pergunta-me o Francisco de Madrid. "O meu namorado vai fazer um projecto para a Guiné-Conacri. Não é a Bissau, é a Conacri... Não é a Guiné Portuguesa, é a Guiné Francesa." explica-me a Carina. "Puto, vou ficar mais uns meses em Nova Iorque." escrevo eu ao André que estudou comigo na Católica e que agora vive no mesmo bairro que eu aqui na grande maçã. É uma nova geração de emigrantes.

Como o artigo "Los portugueses vuelven a Angola" do jornal espanhol El País diz, os emigrantes portugueses já não são pessoas de baixas qualificações que arrancam do seu país em busca de uma vida melhor desempenhando ofícios como empregada doméstica ou servente de obra. A nova geração de emigrantes é altamente qualificada, desde gestores a advogados e engenheiros, que saem do seu país à procura de uma nova experiência e de um novo desafio profissional e pessoal, mas também à procura de uma saída imediata da condição de "quinhenteurista" descrita pelo movimento nacional Geração à Rasca.

É difícil observar esta mudança sem pensar nas suas consequências. E a primeira que me vem à mente é sobre a imagem de Portugal cá fora. Se os emigrantes de baixas qualificações transmitiram em tempos uma ideia de um Portugal pobre e feio, os emigrantes de elevadas qualificações fazem agora exactamente o contrário. Tenho amigos brasileiros que antes quando pensavam em portugueses vinha-lhes apenas e imediatamente a imagem de padeiros e bigodudas, sendo que agora começam a ver que Portugal tem pessoas inteligentes e miúdas giras. Por sua vez, os norte-americanos vão aprendendo para seu grande espanto, vindo de mim parte desse contributo, que a língua portuguesa não nasceu no Brasil, mas em Portugal, e que existem vários países espalhados por África, Ásia e Oceania que também falam português.

Mas há uma coisa mais interessante que o efeito benéfico na imagem de Portugal. Contrariamente aos emigrantes portugueses que antigamente abandonavam o seu país em busca de uma vida melhor, a maioria dos novos emigrantes, comigo incluído, ambiciona um dia voltar para Portugal. A maioria vem cá para fora pela experiência e para ganhar umas massas, mas não vem para fazer vida. É certo que querer fazer e fazer são coisas muito diferentes. O acaso do amor, como todos sabemos, pode sempre pregar-nos umas partidas. E as desinteressantes condições financeiras de um assalariado em Portugal podem levar à eterna procrastinação. Ainda assim, acho que a maioria irá voltar. E a voltar, vamos ter uma geração muito interessante a viver em Portugal. Uma geração altamente qualificada, internacional, super viajada, fluente em várias línguas, com uma noção ampla do mundo e com uma noção do que pode ser o lugar do seu país no mundo.

Mas para já, poucos são os “retornados”. A maioria prefere continuar cá fora. A maioria prefere continuar na constante novidade, na condição de bem remunerado, na liberdade da ausência de pressão social de olhares conhecidos, no contacto constante com pessoas diferentes. A maioria prefere continuar no desafio de viver numa cultura estranha, no desafio de ter que comunicar numa língua diferente, no desafio de estar num ambiente de trabalho mais exigente, no desafio da saudade...