Nova Iorque, 31 de Dezembro de 2011
Há uma sensação constante de que podemos falar com (quase!) quem quisermos nesta cidade: com o vizinho, com alguém que passa na rua, com a pessoa que trabalha ao balcão, com o passageiro no metro, com o espectador no concerto, com a miúda que está no café sentada na mesa do lado... Facilmente desconhecidos imergem em conversas quotidianas como se esta metrópole de um pequeno bairro se tratasse.
Começa-se tipicamente pelo simples prazer da conversa. "You have an accent, don't you?... Where are you from?" ou "I see you pretty often. Do you live around here?" E por vezes encontram-se coisas em comum. Ambos trabalham no mesmo ramo e trocam-se cartões. Ambos procuram um novo apartamento e trocam-se experiências sobre o processo de busca. Um procura emprego e o outro conhece quem procure empregar, "send me your resume". Uma pessoa interessa-se por algo que um desconhecido tem: "Is that the new iPad? How do you like it? I'm thinking of buying one myself..." e trocam-se opiniões sobre o produto. Um está a tirar um MBA, o outro quer tirar um MBA, pergunta-se, responde-se, trocam-se ideias. É certo que a maioria destas conversas nunca passará de uma conversa entre desconhecidos, mas é impressionante o que se pode aprender assim, as oportunidades que podem surgir assim.
Em Lisboa é exactamente o contrário. Se eu quiser falar com a pessoa ao meu lado no café, é-me difícil, a minha vontade é imediatamente obstruída por uma barreira cultural que se exibe como intransponível. Não faz sentido virar-me e perguntar: "Isso é o novo blackberry? Que giro! E está contente com a compra?" Nem muito menos questionar: "O que é que você faz da vida?" Se para nós conversar com um desconhecido já não é muito normal, falar sobre as respectivas situações laborais ou sobre os objectivos pessoais constitui um enorme desvio à norma. Até falar com uma miúda desconhecida é-nos mais difícil: "Mas eu conheço-te de algum lado?!" respondem elas frequentemente a abordagens menos elaboradas.
Mas porque será? Porque é que não nos é fácil estabelecer conversas com alguém que não conhecemos? Achar-nos-emos mais importantes do que aquela pessoa que está a almoçar mesmo ao nosso lado? Ou do que aquele indivíduo com quem compartilhamos o trajecto de autocarro? Acharemos que não temos nada para aprender? Será arrogância? Insegurança? Desconfiança acerca das intenções de quem nos aborda? Ou, será por outro lado, simplesmente e ironicamente, a nossa forma de estar menos individualista, mais voltada para as relações, que nos faz focar apenas nas pessoas que temos e ignorar as demais?
Àqueles a que a resposta passa pelo mau carácter, que continuem a prestar esse seu serviço silencioso à comunidade. Aos remanescentes, pergunto: porque não experimentar? A perder, exceptuando um olhar mais surpreso ou uma ausência de resposta, sinceramente não adivinho nada. A ganhar, o agradável ambiente de bairro ou de pequena cidade coabitado com as vantagens de se viver num grande centro populacional. E, quem sabe, potenciais novas ideias e oportunidades.
A Terra das Oportunidades?
Nova Iorque, 22 de Novembro de 2011
Entre 1892 e 1954, 12 milhões de imigrantes passaram pela ilha de Ellis, um pequeno pedaço de terra imediatamente a sul da ilha de Manhattan que foi durante aquele período o principal posto federal norte-americano de controle de imigração. Atraídas pelo favorável contexto económico, e muitas vezes fugindo da fome, das Guerras e de perseguições religiosas, inúmeras famílias de vários cantos da Europa chegaram aos EUA em busca de um sonho; um sonho de liberdade e de melhores condições de vida. Apesar do criterioso e demorado processo de controle, a maioria dos recém-chegados foi recebida de braços bem abertos pelo governo dos EUA, sendo que apenas cerca de 2% das pessoas foram recambiadas, e essencialmente devido ao diagnóstico de doenças contagiosas. Os EUA viviam nessa altura uma fase marcante do processo de formação da sua identidade, uma nação que representou a salvação para milhões de estrangeiros que sentiram necessidade de fugir dos seus próprios países e que ao mesmo tempo se sustentou nesse influxo de pessoas para crescer do ponto de vista económico e populacional. Nessa altura, os EUA assumiam-se mais do que nunca como um país de imigrantes. Nessa altura... porque muita coisa parece ter mudado desde então...
O sentimento era generalizado entre os estudantes internacionais no meu MBA, um misto de surpresa e indignação por não termos as mesmas oportunidades de emprego que os norte-americanos tinham. Havia logo à partida um obstáculo cultural; a forma de ser muito própria dos norte-americanos concedia-nos uma forte desvantagem pela maior dificuldade na interacção durante os processos de recrutamento. Contudo, embora este obstáculo nos suscitasse muitas conversas críticas, não gerava queixas legítimas: quem decidiu ir estudar e procurar emprego num país tão diferente fomos nós, nós é que queríamos ser imigrantes, e portanto nós é que tínhamos de nos tornar mais norte-americanos, não eram os norte-americanos que tinham de nos aceitar como nós éramos. No entanto; certos obstáculos eram imunes a qualquer esforço de adaptação. Abrindo o website de emprego da faculdade, era desoladora a proporção de ofertas de emprego que tinham como requisito obrigatório já possuir autorização legal para trabalhar nos EUA. Eram poucos os empregadores que mostravam interesse em contratar alunos estrangeiros, poucos estavam dispostos a incorrer a custos e a envolver-se em burocracias para patrocinar uma candidatura a um visto de trabalho. Era tipo um Catch 22: para conseguir emprego era preciso ter visto de trabalho, para conseguir visto de trabalho era preciso ter emprego. Este obstáculo sim, gerava indignação, perplexidade em presenciar uma filosofia de American Jobs for American People em pleno século XXI.
As promessas de Barack Obama, de por um lado punir o incumprimento da lei por parte de quem passa ilegalmente a fronteira, mas também por outro lado de facilitar a concessão de vistos de trabalho, têm sido cumpridas apenas de forma parcial. Segundo um recente discurso do próprio Presidente realizado na cidade fronteiriça de El Paso, o policiamento das fronteiras com o México está mais rígido do que nunca, sendo que o número de agentes dedicados a esta função duplicou desde 2004. Um artigo da Reuters confirma estes esforços governamentais, relatando que durante o ainda incompleto actual mandato presidencial já foram deportados mais de um milhão de imigrantes ilegais, número que compara com um milhão e meio de deportados durante dois mandatos inteiros de George W. Bush. De facto, a primeira parte da promessa parece estar a ser cumprida. Quanto à segunda parte é que a estória parece ser outra. Na verdade, a culpa não pode ser atribuída de forma simplista a Obama; o Presidente teceu vários discursos de apoio ao DREAM Act, uma proposta que visava a legalização de imigrantes ilegais sob determinadas condições. Porém, o Senado rejeitou-a, para muita infelicidade dos mais de 11 milhões de imigrantes ilegais a viver no país. E em relação aos estudantes estrangeiros, também nada parece estar a ser feito com o intuito de mitigar os obstáculos burocráticos que aqueles jovens enfrentam aquando das suas tentativas, na sua maioria falhadas, para ficarem nos EUA após conclusão dos seus estudos. Esta situação persiste, mesmo apesar das críticas de vários políticos (de mente mais aberta) ao actual sistema que forma jovens estrangeiros nas universidades norte-americanas para depois mandá-los de volta para os seus países, incongruência que o Mayor nova-iorquino Michael Bloomberg chegou mesmo a denominar de "suicídio nacional".
A identidade dos EUA está em transformação, gradual, com o fechar de portas a vários daqueles estrangeiros que também gostariam de fazer parte do sonho americano; um processo irónico em que os descendentes dos imigrantes de ontem não sentem qualquer problema em recusar os imigrantes de hoje; a memória é curta... E aquela beleza inerente à construção de uma nação baseada no sonho de milhões de imigrantes das mais diversas origens vai parecendo ser, cada vez mais, uma coisa do passado.
Entre 1892 e 1954, 12 milhões de imigrantes passaram pela ilha de Ellis, um pequeno pedaço de terra imediatamente a sul da ilha de Manhattan que foi durante aquele período o principal posto federal norte-americano de controle de imigração. Atraídas pelo favorável contexto económico, e muitas vezes fugindo da fome, das Guerras e de perseguições religiosas, inúmeras famílias de vários cantos da Europa chegaram aos EUA em busca de um sonho; um sonho de liberdade e de melhores condições de vida. Apesar do criterioso e demorado processo de controle, a maioria dos recém-chegados foi recebida de braços bem abertos pelo governo dos EUA, sendo que apenas cerca de 2% das pessoas foram recambiadas, e essencialmente devido ao diagnóstico de doenças contagiosas. Os EUA viviam nessa altura uma fase marcante do processo de formação da sua identidade, uma nação que representou a salvação para milhões de estrangeiros que sentiram necessidade de fugir dos seus próprios países e que ao mesmo tempo se sustentou nesse influxo de pessoas para crescer do ponto de vista económico e populacional. Nessa altura, os EUA assumiam-se mais do que nunca como um país de imigrantes. Nessa altura... porque muita coisa parece ter mudado desde então...
O sentimento era generalizado entre os estudantes internacionais no meu MBA, um misto de surpresa e indignação por não termos as mesmas oportunidades de emprego que os norte-americanos tinham. Havia logo à partida um obstáculo cultural; a forma de ser muito própria dos norte-americanos concedia-nos uma forte desvantagem pela maior dificuldade na interacção durante os processos de recrutamento. Contudo, embora este obstáculo nos suscitasse muitas conversas críticas, não gerava queixas legítimas: quem decidiu ir estudar e procurar emprego num país tão diferente fomos nós, nós é que queríamos ser imigrantes, e portanto nós é que tínhamos de nos tornar mais norte-americanos, não eram os norte-americanos que tinham de nos aceitar como nós éramos. No entanto; certos obstáculos eram imunes a qualquer esforço de adaptação. Abrindo o website de emprego da faculdade, era desoladora a proporção de ofertas de emprego que tinham como requisito obrigatório já possuir autorização legal para trabalhar nos EUA. Eram poucos os empregadores que mostravam interesse em contratar alunos estrangeiros, poucos estavam dispostos a incorrer a custos e a envolver-se em burocracias para patrocinar uma candidatura a um visto de trabalho. Era tipo um Catch 22: para conseguir emprego era preciso ter visto de trabalho, para conseguir visto de trabalho era preciso ter emprego. Este obstáculo sim, gerava indignação, perplexidade em presenciar uma filosofia de American Jobs for American People em pleno século XXI.
As promessas de Barack Obama, de por um lado punir o incumprimento da lei por parte de quem passa ilegalmente a fronteira, mas também por outro lado de facilitar a concessão de vistos de trabalho, têm sido cumpridas apenas de forma parcial. Segundo um recente discurso do próprio Presidente realizado na cidade fronteiriça de El Paso, o policiamento das fronteiras com o México está mais rígido do que nunca, sendo que o número de agentes dedicados a esta função duplicou desde 2004. Um artigo da Reuters confirma estes esforços governamentais, relatando que durante o ainda incompleto actual mandato presidencial já foram deportados mais de um milhão de imigrantes ilegais, número que compara com um milhão e meio de deportados durante dois mandatos inteiros de George W. Bush. De facto, a primeira parte da promessa parece estar a ser cumprida. Quanto à segunda parte é que a estória parece ser outra. Na verdade, a culpa não pode ser atribuída de forma simplista a Obama; o Presidente teceu vários discursos de apoio ao DREAM Act, uma proposta que visava a legalização de imigrantes ilegais sob determinadas condições. Porém, o Senado rejeitou-a, para muita infelicidade dos mais de 11 milhões de imigrantes ilegais a viver no país. E em relação aos estudantes estrangeiros, também nada parece estar a ser feito com o intuito de mitigar os obstáculos burocráticos que aqueles jovens enfrentam aquando das suas tentativas, na sua maioria falhadas, para ficarem nos EUA após conclusão dos seus estudos. Esta situação persiste, mesmo apesar das críticas de vários políticos (de mente mais aberta) ao actual sistema que forma jovens estrangeiros nas universidades norte-americanas para depois mandá-los de volta para os seus países, incongruência que o Mayor nova-iorquino Michael Bloomberg chegou mesmo a denominar de "suicídio nacional".
A identidade dos EUA está em transformação, gradual, com o fechar de portas a vários daqueles estrangeiros que também gostariam de fazer parte do sonho americano; um processo irónico em que os descendentes dos imigrantes de ontem não sentem qualquer problema em recusar os imigrantes de hoje; a memória é curta... E aquela beleza inerente à construção de uma nação baseada no sonho de milhões de imigrantes das mais diversas origens vai parecendo ser, cada vez mais, uma coisa do passado.
O Senhor é branco ou latino?
Nova Iorque, 29 de Setembro de 2011
Batem à porta. "Boa tarde. Recebemos o seu census incompleto, faltou-lhe nomeadamente preencher a parte da raça ou etnia. O Senhor é branco, latino, negro, asiático, americano nativo, nativo do Alasca ou outro?"
Mas que obsessão com a raça é esta? Liga-se a televisão e os programas de comédia passam horas em piadas sobre estereótipos raciais, há comediantes que fazem carreiras de sucesso baseadas quase exclusivamente em temas de conteúdo racial; os noticiários não se calam com categorizações por raça ou por origem, com o Presidente que é negro, com o impacto que determinada decisão do Mayor tem no seio da comunidade hispânica ou da comunidade judaica, com o não sei quem que é latino. Na minha faculdade havia associações de estudantes negros, latinos, judeus e asiáticos, só não havia associações de estudantes brancos (porque isso seria racismo...). E havia também eventos de recrutamento para empresas destinados exclusivamente para negros, latinos e outras "minorias". As referências a raças sucedem-se nos meios de comunicação, a discriminação "positiva" imposta pelas instituições, ou diria imposta pela pressão das "minorias", está espalhada pela sociedade, havendo facilidades de acesso a faculdades, a bolsas de estudo e a empregos para pessoas de determinadas raças, especialmente para negros e latinos.
Para um português isto tudo é desconfortável, até meio agressivo, porque para nós isto tudo é racismo. Nós encaramos as diferenças raciais de forma diferente: publicamente calamo-nos, porque falar de diferenças seria como que dizer que não somos iguais. Nós só abordamos o tema da raça quando é de facto necessário fazê-lo para explicar uma determinada situação. Em Portugal, as referências a raça em voz alta são raras, tais como são raras as piadas raciais na televisão, e tais como são raras as notícias sobre temas raciais. E não nos passa pela cabeça definir institucionalmente facilidades de acesso a faculdades ou a empregos para um determinado tipo de pessoas só porque estas pessoas têm uma determinada cor de pele. Para nós isso seria injusto, seria racismo.
"Olhe... eu não sei qual é a minha raça, sempre achei que era latino mas também sempre achei que era branco... Escreva a senhora o que achar que eu sou." "Não! Quem tem que dizer a sua raça é o senhor." E a obsessão é tanta que chega a tocar no ridículo: isto é um bocado à base da auto-identificação. Para dizer a verdade, eu estava só a ser chato. Eu já sabia perfeitamente que, de acordo com a definição norte-americana de latino, eu não sou latino, pois aqui esta palavra refere-se não a pessoas de qualquer país de língua latina mas a pessoas de qualquer país americano de língua latina. Contudo, bastava eu ter uma qualquer ascendência longínqua num país da América Latina para poder me auto-identificar como latino. Chega a haver pessoas brancas, abastadas e culturalmente muito norte-americanizadas que só porque são netas de um sul-americano têm direito a facilidades no acesso a faculdades e a empregos. E no caso dos negros a história também é muito flexível. Aqui o conceito de mulato não existe. Segundo a descrição que está no website do census norte-americano, uma pessoa de raça negra é qualquer pessoa que tenha na sua ascendência alguém de etnia africana, não se referindo a nenhuma quantidade mínima de ascendentes negros. Uma pessoa que seja três quartos branca e um quarto negra é considerada negra, ainda que essa pessoa seja mais branca do que negra. O Obama é negro, a Condoleezza Rice é negra, o Colin Powell é negro e a Mariza se fosse norte-americana também seria negra, ainda que todas estas pessoas sejam mulatas e algumas delas quase brancas. E não ser exactamente branco é quanto basta para se ter a vida facilitada no processo de candidatura a faculdades e a empregos.
Quando confrontados sobre a justiça disto tudo, os norte-americanos frequentemente invocam o passado altamente discriminador contra não-brancos e em particular contra pessoas de raça negra. E de facto, basta sair à rua e olhar à volta para perceber que as coisas aqui deverão ter sido ainda mais duras do que noutros sítios. Comparando por exemplo com o Brasil, país que tal como os EUA foi populado essencialmente por imigrantes europeus e por um grande influxo de escravos negros, verifica-se aqui uma grande diferença. Enquanto que no Brasil o que se vê mais são mulatos, uns mais negros e outros mais brancos mas mulatos, aqui quase não se vêem mulatos, aqui há brancos e há negros. Julgo que é esta forte discriminação de uns para um lado e outros para outro que leva a este sentimento de revolta contra a condição económica mais elevada das pessoas de raça branca e que leva as pessoas de raça negra a terem capacidade de exigir mecanismos institucionais que os compensem pelo facto de serem descendentes de escravos, na medida em que esta condição está associada à enorme desvantagem hereditária que é crescer em seios familiares desfavorecidos e de níveis de educação muito baixos.
Não me passa pela cabeça discordar desta ideia de instituir formas de favorecer quem nasceu desfavorecido. Uma pessoa que cresce num ambiente pobre, num subúrbio manhoso, que tem como referência pessoas que não deveriam ser referência para ninguém ou que frequenta high schools mal-frequentados não terá as mesmas oportunidades que terá uma pessoa que nasce num bairro rico. Dar a estas pessoas a oportunidade que nunca tiveram é uma questão de justiça social. E na verdade, até é mais do que isso: às vezes basta uma oportunidade concedida à pessoa certa no momento certo para fazer a diferença entre ter mais um marginal na rua ou ter mais um membro a acrescentar valor à sociedade. Sou a favor da democratização das oportunidades, e de redireccioná-las para quem nunca as teve. Mas fazê-lo com critérios de raça ou de origem, não! Compreendo que em média pessoas de determinadas raças nascem em ambientes mais desfavorecidos do que pessoas de outras raças. Contudo, nem todas as pessoas estão na média. Há latinos, tal como há negros, que nascem com condições sócio-económicas muito favoráveis. Não faria mais sentido direccionar a concessão extraordinária de oportunidades às pessoas de classes sociais mais baixas, sejam elas negras, amarelas, castanhas ou brancas? O critério de estrato social é uma solução que atacaria de forma mais directa o problema da desigualdade de acesso a oportunidades. E além disso, adoptar um critério desligado de raças mitigaria a constante invocação de temas de conteúdo racial, parando de alimentar este traço cultural norte-americano em que as pessoas são metidas em cestos, como se cada pessoa carecesse de uma personalidade própria e individual.
Batem à porta. "Boa tarde. Recebemos o seu census incompleto, faltou-lhe nomeadamente preencher a parte da raça ou etnia. O Senhor é branco, latino, negro, asiático, americano nativo, nativo do Alasca ou outro?"
Mas que obsessão com a raça é esta? Liga-se a televisão e os programas de comédia passam horas em piadas sobre estereótipos raciais, há comediantes que fazem carreiras de sucesso baseadas quase exclusivamente em temas de conteúdo racial; os noticiários não se calam com categorizações por raça ou por origem, com o Presidente que é negro, com o impacto que determinada decisão do Mayor tem no seio da comunidade hispânica ou da comunidade judaica, com o não sei quem que é latino. Na minha faculdade havia associações de estudantes negros, latinos, judeus e asiáticos, só não havia associações de estudantes brancos (porque isso seria racismo...). E havia também eventos de recrutamento para empresas destinados exclusivamente para negros, latinos e outras "minorias". As referências a raças sucedem-se nos meios de comunicação, a discriminação "positiva" imposta pelas instituições, ou diria imposta pela pressão das "minorias", está espalhada pela sociedade, havendo facilidades de acesso a faculdades, a bolsas de estudo e a empregos para pessoas de determinadas raças, especialmente para negros e latinos.
Para um português isto tudo é desconfortável, até meio agressivo, porque para nós isto tudo é racismo. Nós encaramos as diferenças raciais de forma diferente: publicamente calamo-nos, porque falar de diferenças seria como que dizer que não somos iguais. Nós só abordamos o tema da raça quando é de facto necessário fazê-lo para explicar uma determinada situação. Em Portugal, as referências a raça em voz alta são raras, tais como são raras as piadas raciais na televisão, e tais como são raras as notícias sobre temas raciais. E não nos passa pela cabeça definir institucionalmente facilidades de acesso a faculdades ou a empregos para um determinado tipo de pessoas só porque estas pessoas têm uma determinada cor de pele. Para nós isso seria injusto, seria racismo.
"Olhe... eu não sei qual é a minha raça, sempre achei que era latino mas também sempre achei que era branco... Escreva a senhora o que achar que eu sou." "Não! Quem tem que dizer a sua raça é o senhor." E a obsessão é tanta que chega a tocar no ridículo: isto é um bocado à base da auto-identificação. Para dizer a verdade, eu estava só a ser chato. Eu já sabia perfeitamente que, de acordo com a definição norte-americana de latino, eu não sou latino, pois aqui esta palavra refere-se não a pessoas de qualquer país de língua latina mas a pessoas de qualquer país americano de língua latina. Contudo, bastava eu ter uma qualquer ascendência longínqua num país da América Latina para poder me auto-identificar como latino. Chega a haver pessoas brancas, abastadas e culturalmente muito norte-americanizadas que só porque são netas de um sul-americano têm direito a facilidades no acesso a faculdades e a empregos. E no caso dos negros a história também é muito flexível. Aqui o conceito de mulato não existe. Segundo a descrição que está no website do census norte-americano, uma pessoa de raça negra é qualquer pessoa que tenha na sua ascendência alguém de etnia africana, não se referindo a nenhuma quantidade mínima de ascendentes negros. Uma pessoa que seja três quartos branca e um quarto negra é considerada negra, ainda que essa pessoa seja mais branca do que negra. O Obama é negro, a Condoleezza Rice é negra, o Colin Powell é negro e a Mariza se fosse norte-americana também seria negra, ainda que todas estas pessoas sejam mulatas e algumas delas quase brancas. E não ser exactamente branco é quanto basta para se ter a vida facilitada no processo de candidatura a faculdades e a empregos.
Quando confrontados sobre a justiça disto tudo, os norte-americanos frequentemente invocam o passado altamente discriminador contra não-brancos e em particular contra pessoas de raça negra. E de facto, basta sair à rua e olhar à volta para perceber que as coisas aqui deverão ter sido ainda mais duras do que noutros sítios. Comparando por exemplo com o Brasil, país que tal como os EUA foi populado essencialmente por imigrantes europeus e por um grande influxo de escravos negros, verifica-se aqui uma grande diferença. Enquanto que no Brasil o que se vê mais são mulatos, uns mais negros e outros mais brancos mas mulatos, aqui quase não se vêem mulatos, aqui há brancos e há negros. Julgo que é esta forte discriminação de uns para um lado e outros para outro que leva a este sentimento de revolta contra a condição económica mais elevada das pessoas de raça branca e que leva as pessoas de raça negra a terem capacidade de exigir mecanismos institucionais que os compensem pelo facto de serem descendentes de escravos, na medida em que esta condição está associada à enorme desvantagem hereditária que é crescer em seios familiares desfavorecidos e de níveis de educação muito baixos.
Não me passa pela cabeça discordar desta ideia de instituir formas de favorecer quem nasceu desfavorecido. Uma pessoa que cresce num ambiente pobre, num subúrbio manhoso, que tem como referência pessoas que não deveriam ser referência para ninguém ou que frequenta high schools mal-frequentados não terá as mesmas oportunidades que terá uma pessoa que nasce num bairro rico. Dar a estas pessoas a oportunidade que nunca tiveram é uma questão de justiça social. E na verdade, até é mais do que isso: às vezes basta uma oportunidade concedida à pessoa certa no momento certo para fazer a diferença entre ter mais um marginal na rua ou ter mais um membro a acrescentar valor à sociedade. Sou a favor da democratização das oportunidades, e de redireccioná-las para quem nunca as teve. Mas fazê-lo com critérios de raça ou de origem, não! Compreendo que em média pessoas de determinadas raças nascem em ambientes mais desfavorecidos do que pessoas de outras raças. Contudo, nem todas as pessoas estão na média. Há latinos, tal como há negros, que nascem com condições sócio-económicas muito favoráveis. Não faria mais sentido direccionar a concessão extraordinária de oportunidades às pessoas de classes sociais mais baixas, sejam elas negras, amarelas, castanhas ou brancas? O critério de estrato social é uma solução que atacaria de forma mais directa o problema da desigualdade de acesso a oportunidades. E além disso, adoptar um critério desligado de raças mitigaria a constante invocação de temas de conteúdo racial, parando de alimentar este traço cultural norte-americano em que as pessoas são metidas em cestos, como se cada pessoa carecesse de uma personalidade própria e individual.
A essa pergunta, a resposta é óbvia.
Nova Iorque, 6 de Setembro de 2011
É difícil imaginar, sem ter aqui vivido, quão diferentes são os EUA e a Europa. De facto, antes de vir para Nova Iorque via os EUA, talvez por serem também um país ocidental, como não muito diferentes. É óbvio que sempre soube, por ter lido e ouvido, que os EUA são mais capitalistas, que as pessoas são mais movidas a dinheiro, que há um maior peso da iniciativa privada e um menor peso do estado, que os trabalhadores podem ser despedidos a qualquer momento sem que haja uma causa, não havendo lugar para essa coisa do ser-se efectivo. Mas é difícil perceber, sem ter aqui vivido, o impacto que tudo isto tem na cultura de um povo, na forma como as pessoas interagem, e até na forma como as pessoas regem as suas vidas.
É difícil imaginar, sem ter aqui vivido, quão diferentes são os EUA e a Europa. De facto, antes de vir para Nova Iorque via os EUA, talvez por serem também um país ocidental, como não muito diferentes. É óbvio que sempre soube, por ter lido e ouvido, que os EUA são mais capitalistas, que as pessoas são mais movidas a dinheiro, que há um maior peso da iniciativa privada e um menor peso do estado, que os trabalhadores podem ser despedidos a qualquer momento sem que haja uma causa, não havendo lugar para essa coisa do ser-se efectivo. Mas é difícil perceber, sem ter aqui vivido, o impacto que tudo isto tem na cultura de um povo, na forma como as pessoas interagem, e até na forma como as pessoas regem as suas vidas.
Mal comecei o MBA, ainda nem as aulas tinham começado, ainda numa fase chamada pre-term, tipo aquecimento, já nos falavam e falavam sobre como conseguir encontrar emprego; isto numa altura em que ainda tínhamos os 2 anos de estudo pela frente. Sentados num pequeno anfiteatro, ouvíamos explicações dos alunos do segundo ano sobre o que tínhamos de fazer para encontrar estágio de verão, sobre a importância que o estágio de verão tinha no processo de conseguir emprego depois do MBA, e sobre as milhentas coisas que íamos ter que fazer na nossa pesquisa sobre as possíveis carreiras que poderíamos escolher e sobre as possíveis empresas onde poderíamos vir a ter interesse em trabalhar. Em boa verdade, tanto quanto sei, esta preocupação prematura com o emprego pós-MBA também existe nos MBAs fora dos EUA. O meu ponto não é esse. O meu ponto é que para mim e para os meus colegas europeus isto foi uma novidade e até uma surpresa, enquanto que para os meus colegas norte-americanos, isto foi, para a sua grande maioria, um simples repetir de tarefas.
O meu amigo Vivek conta que durante a sua licenciatura, passou uma parte muito significativa do seu tempo a pesquisar e a aprender sobre os vários empregos que ele considerava poder vir a ter depois do curso. Tal como durante o MBA, ele passou muito tempo do seu undergrad a ler sobre vários sectores, a ler sobre várias funções, a ler sobre várias empresas e a inquirir amigos e ex-alunos da sua faculdade que tinham escolhido a carreira que ele poderia vir a escolher. Todo este esforço, de muitas dezenas de horas de pesquisa e muito à base do estabelecimento de relacionamentos, para tentar perceber com um grande nível de pormenor as oportunidades de crescimento profissional nessa função e nessa empresa, para tentar perceber como seria a progressão salarial, como seria o dia-a-dia no local de trabalho, como seria o processo de aprendizagem, quais seriam as maiores dificuldades na fase de adaptação durante os primeiros meses de trabalho. Ou seja, isto tudo para ficar a conhecer com o maior nível de detalhe possível como seria o seu futuro em cada um caminhos que ele pudesse vir a escolher para a sua vida.
Haverá com certeza várias razões culturais que levam os norte-americanos a fazer tudo isto, nem que seja o simples facto de que as próprias empresas quando avaliam candidatos querem saber que esforços foram feitos para conhecer a empresa e a função. Contudo, há uma razão institucional por detrás destes traços culturais: o ensino universitário é muitíssimo caro. A título de exemplo, a licenciatura de 4 anos na NYU Stern School of Business custa 180.000 dólares. Sim, vocês leram bem! Uma licenciatura numa faculdade bem reputada custa 45.000 dólares por ano. E a isto ainda acrescem os custos de vida; ou seja, estamos a falar de uns 250.000 dólares em despesas por 4 anos de estudo. Os futuros alunos universitários com 18 ou 19 anos de idade chegam ao banco e pedem, muito corajosamente, um belo de um gigantesco student loan. E é óbvio que quem tem uma dívida de 250.000USD para pagar vai encarar a busca de emprego a sério. Todos os alunos querem um emprego promissor que lhes permita pagar a dívida o mais rapidamente possível. Todos querem escolher o emprego certo, foi para isso que eles desembolsaram a crédito esta monstruosa quantia de dinheiro, foi para encontrar o emprego que é o right fit para eles e para encontrar o emprego que compense o preço que foi pago pelo curso. E se não encontrar o emprego certo depois do curso já é mau, ficar desempregado é a ultimate tragedy. Imaginem-se vocês recém-licenciados, sem emprego e com um saldo negativo de 250.000USD na conta... Ninguém quer arriscar ficar desempregado, todos querem encontrar emprego, custe o que custar. E, pela mesma lógica, o processo de avaliação de qual curso tirar e onde tirar também é feito com enorme seriedade e cuidado.
A desvantagem do ensino universitário privado (ou público com preços de privado), segundo os economistas mais à esquerda, e segundo os jovens europeus que se manifestam e se revoltam contra cada pequeno aumento de propinas, é que o acesso ao ensino fica limitado aos jovens de famílias de maiores posses. Mas não! Qualquer pessoa pode pedir um empréstimo para poder ir estudar. O acesso ao ensino fica de facto limitado, mas fica limitado às pessoas que realmente querem tirar um curso e às pessoas que realmente acreditam que o curso vai lhes abrir portas profissionais. Na verdade, e muito curiosamente, até os filhos de pais ricos se endividam para ir estudar. Segundo uma notícia que saiu no site da bloomberg intitulada de “Affluent Parents won’t give kids a free college ride”, os pais com possibilidades geralmente suportam apenas parte das despesas universitárias, e com um simples objectivo: obrigar os filhos a assumir responsabilidades financeiras e encarar o curso e o processo de busca de emprego com seriedade.
Actualmente, em tempos de crise de finanças públicas e de competitividade no nosso país (e não só), muito se fala da necessidade de pôr fim a um sistema económico descrito por muitos como antiquadamente pouco liberal e gerador de parasitas, com a possível privatização do ensino a ser frequentemente colocada na mesa do debate por economistas de direita; e, como sempre, havendo opiniões divergentes sobre as vantagens e desvantagens económicas. Contudo, para mim, a questão que se deve colocar não é económica, simplesmente porque a questão económica parece-me de resposta óbvia. Aqui, as pessoas são obrigadas a desenvolver uma responsabilidade financeira, uma maturidade, uma menor aversão ao risco e um foco na profissão muito mais cedo do que nós. Garanto-vos que se vocês vierem aos Estados Unidos, salvo excepções que sempre as há, vocês não irão encontrar jovens a tirar cursos que são mais que sabidos não terem saída, não irão encontrar pessoas a tirar um curso qualquer com o objectivo primordial de se tornarem “Doutores” ainda que isso em nada os ajude a encontrar emprego, não irão encontrar jovens no último ano do curso sem qualquer ideia do que poderão ser as suas carreiras, e não irão de certeza encontrar marmanjos com quase 30 anos ainda a tocar cavaquinho numa tuna de Coimbra.
Mas a problemática não é só a do (sub)desenvolvimento das responsabilidades pessoais. A problemática é também a do mal que faz aos outros. Sem nem falar da cultura irresponsável colectiva que se propaga contagiosamente, estamos claramente perante um problema de parasitismo. Uma pessoa que fica 8 anos em vez de 4 a tirar um curso numa universidade pública está covardemente a exigir o dobro do esforço aos senhores contribuintes que lhe pagam a faculdade com o rombo brutal que levam no salário todos os meses. Mas ainda há outro problema: se é certo e sabido que não há emprego para todos os jovens que estão a tirar curso de psicologia, porque é que nós, como sociedade, haveremos de viver nesta falácia, onde jovens se preparam para funções inexistentes? Portanto, a questão que se deve colocar é outra. E há de facto uma questão. Mas a questão é cultural. Uma mudança tão radical do sistema com tais impactos significativos na fase jovem das vidas das pessoas molda drasticamente as suas maneiras de ser (basta olhar à minha volta para realizar isso). Como tal, o que temos de nos perguntar é se queremos mudar as nossas vidas, se queremos mudar a idade em que os jovens começam a assumir responsabilidades maiores, se queremos criar uma cultura de endividamento pessoal que obriga as pessoas a esforçarem-se mais porque têm que pagar o que devem, se queremos criar uma cultura mais focada no trabalho, uma cultura mais movida a dinheiro, mais individualista e mais orientada para o sucesso profissional; o que temos de nos perguntar é se queremos mudar a nossa forma de pensar e de viver.
Os Novos Emigrantes Portugueses
Nova Iorque, 2 de Julho de 2011
Pego no telemóvel, abro o chat e escrevo ao Vasco: "Vou morar para São Paulo. Daqui a uns 6 meses estou aí." "Boa! Cá te espero." responde ele. "Olga, como é que andas?" "Estou óptima! Estou agora a entrar no avião para Maputo." "Lourenço Marques!..." corrijo eu na brincadeira. “Olha, afinal já não vou aí passar uns dias.” digo à Inês de Londres. "A minha roommate está cheia de febre. E estou farta destes franceses que me discriminam só porque não falo correctamente a língua deles." escreve-me a Joana de Paris. "Quando é que voltas?" pergunta a Filipa, "retornada" de Barcelona. "Epah, afinal não volto. Vou ficar por aqui mais uns 6 meses e depois arranco para São Paulo." respondo eu. "Miguel, vou ser Mãe!" escreve-me a Maria de Madrid. "Falconi, como é que tu fizeste com o visto de trabalho quando estagiaste no ano passado no Rio de Janeiro? É que eu vou para São Paulo fazer o meu estágio." pergunta-me a Rita de Singapura. "Isto por aqui não anda nada fácil." diz-me o Diogo, "retornado" de Londres. "João, por onde é que andas agora?" "Estou em Lisboa, vim há umas semanas de um projecto em Singapura, e estou prestes a arrancar para um projecto em Moscovo." "Vais estar em Nova Iorque no final de Julho? Vou aí de férias." escreve-me a Adriana do Rio de Janeiro. "Vou fazer um projecto de 10 meses em Nice, em França." diz-me o meu primo, seguindo os passos do seu irmão que trabalha já há alguns anos em Toulouse. "Compras-me um iPad aí nos States? É que aí é bem mais barato." pergunta-me o Francisco de Madrid. "O meu namorado vai fazer um projecto para a Guiné-Conacri. Não é a Bissau, é a Conacri... Não é a Guiné Portuguesa, é a Guiné Francesa." explica-me a Carina. "Puto, vou ficar mais uns meses em Nova Iorque." escrevo eu ao André que estudou comigo na Católica e que agora vive no mesmo bairro que eu aqui na grande maçã. É uma nova geração de emigrantes.
Pego no telemóvel, abro o chat e escrevo ao Vasco: "Vou morar para São Paulo. Daqui a uns 6 meses estou aí." "Boa! Cá te espero." responde ele. "Olga, como é que andas?" "Estou óptima! Estou agora a entrar no avião para Maputo." "Lourenço Marques!..." corrijo eu na brincadeira. “Olha, afinal já não vou aí passar uns dias.” digo à Inês de Londres. "A minha roommate está cheia de febre. E estou farta destes franceses que me discriminam só porque não falo correctamente a língua deles." escreve-me a Joana de Paris. "Quando é que voltas?" pergunta a Filipa, "retornada" de Barcelona. "Epah, afinal não volto. Vou ficar por aqui mais uns 6 meses e depois arranco para São Paulo." respondo eu. "Miguel, vou ser Mãe!" escreve-me a Maria de Madrid. "Falconi, como é que tu fizeste com o visto de trabalho quando estagiaste no ano passado no Rio de Janeiro? É que eu vou para São Paulo fazer o meu estágio." pergunta-me a Rita de Singapura. "Isto por aqui não anda nada fácil." diz-me o Diogo, "retornado" de Londres. "João, por onde é que andas agora?" "Estou em Lisboa, vim há umas semanas de um projecto em Singapura, e estou prestes a arrancar para um projecto em Moscovo." "Vais estar em Nova Iorque no final de Julho? Vou aí de férias." escreve-me a Adriana do Rio de Janeiro. "Vou fazer um projecto de 10 meses em Nice, em França." diz-me o meu primo, seguindo os passos do seu irmão que trabalha já há alguns anos em Toulouse. "Compras-me um iPad aí nos States? É que aí é bem mais barato." pergunta-me o Francisco de Madrid. "O meu namorado vai fazer um projecto para a Guiné-Conacri. Não é a Bissau, é a Conacri... Não é a Guiné Portuguesa, é a Guiné Francesa." explica-me a Carina. "Puto, vou ficar mais uns meses em Nova Iorque." escrevo eu ao André que estudou comigo na Católica e que agora vive no mesmo bairro que eu aqui na grande maçã. É uma nova geração de emigrantes.
Como o artigo "Los portugueses vuelven a Angola" do jornal espanhol El País diz, os emigrantes portugueses já não são pessoas de baixas qualificações que arrancam do seu país em busca de uma vida melhor desempenhando ofícios como empregada doméstica ou servente de obra. A nova geração de emigrantes é altamente qualificada, desde gestores a advogados e engenheiros, que saem do seu país à procura de uma nova experiência e de um novo desafio profissional e pessoal, mas também à procura de uma saída imediata da condição de "quinhenteurista" descrita pelo movimento nacional Geração à Rasca.
É difícil observar esta mudança sem pensar nas suas consequências. E a primeira que me vem à mente é sobre a imagem de Portugal cá fora. Se os emigrantes de baixas qualificações transmitiram em tempos uma ideia de um Portugal pobre e feio, os emigrantes de elevadas qualificações fazem agora exactamente o contrário. Tenho amigos brasileiros que antes quando pensavam em portugueses vinha-lhes apenas e imediatamente a imagem de padeiros e bigodudas, sendo que agora começam a ver que Portugal tem pessoas inteligentes e miúdas giras. Por sua vez, os norte-americanos vão aprendendo para seu grande espanto, vindo de mim parte desse contributo, que a língua portuguesa não nasceu no Brasil, mas em Portugal, e que existem vários países espalhados por África, Ásia e Oceania que também falam português.
Mas há uma coisa mais interessante que o efeito benéfico na imagem de Portugal. Contrariamente aos emigrantes portugueses que antigamente abandonavam o seu país em busca de uma vida melhor, a maioria dos novos emigrantes, comigo incluído, ambiciona um dia voltar para Portugal. A maioria vem cá para fora pela experiência e para ganhar umas massas, mas não vem para fazer vida. É certo que querer fazer e fazer são coisas muito diferentes. O acaso do amor, como todos sabemos, pode sempre pregar-nos umas partidas. E as desinteressantes condições financeiras de um assalariado em Portugal podem levar à eterna procrastinação. Ainda assim, acho que a maioria irá voltar. E a voltar, vamos ter uma geração muito interessante a viver em Portugal. Uma geração altamente qualificada, internacional, super viajada, fluente em várias línguas, com uma noção ampla do mundo e com uma noção do que pode ser o lugar do seu país no mundo.
Mas para já, poucos são os “retornados”. A maioria prefere continuar cá fora. A maioria prefere continuar na constante novidade, na condição de bem remunerado, na liberdade da ausência de pressão social de olhares conhecidos, no contacto constante com pessoas diferentes. A maioria prefere continuar no desafio de viver numa cultura estranha, no desafio de ter que comunicar numa língua diferente, no desafio de estar num ambiente de trabalho mais exigente, no desafio da saudade...
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