A essa pergunta, a resposta é óbvia.

Nova Iorque, 6 de Setembro de 2011

É difícil imaginar, sem ter aqui vivido, quão diferentes são os EUA e a Europa. De facto, antes de vir para Nova Iorque via os EUA, talvez por serem também um país ocidental, como não muito diferentes. É óbvio que sempre soube, por ter lido e ouvido, que os EUA são mais capitalistas, que as pessoas são mais movidas a dinheiro, que há um maior peso da iniciativa privada e um menor peso do estado, que os trabalhadores podem ser despedidos a qualquer momento sem que haja uma causa, não havendo lugar para essa coisa do ser-se efectivo. Mas é difícil perceber, sem ter aqui vivido, o impacto que tudo isto tem na cultura de um povo, na forma como as pessoas interagem, e até na forma como as pessoas regem as suas vidas.

Mal comecei o MBA, ainda nem as aulas tinham começado, ainda numa fase chamada pre-term, tipo aquecimento, já nos falavam e falavam sobre como conseguir encontrar emprego; isto numa altura em que ainda tínhamos os 2 anos de estudo pela frente. Sentados num pequeno anfiteatro, ouvíamos explicações dos alunos do segundo ano sobre o que tínhamos de fazer para encontrar estágio de verão, sobre a importância que o estágio de verão tinha no processo de conseguir emprego depois do MBA, e sobre as milhentas coisas que íamos ter que fazer na nossa pesquisa sobre as possíveis carreiras que poderíamos escolher e sobre as possíveis empresas onde poderíamos vir a ter interesse em trabalhar. Em boa verdade, tanto quanto sei, esta preocupação prematura com o emprego pós-MBA também existe nos MBAs fora dos EUA. O meu ponto não é esse. O meu ponto é que para mim e para os meus colegas europeus isto foi uma novidade e até uma surpresa, enquanto que para os meus colegas norte-americanos, isto foi, para a sua grande maioria, um simples repetir de tarefas.

O meu amigo Vivek conta que durante a sua licenciatura, passou uma parte muito significativa do seu tempo a pesquisar e a aprender sobre os vários empregos que ele considerava poder vir a ter depois do curso. Tal como durante o MBA, ele passou muito tempo do seu undergrad a ler sobre vários sectores, a ler sobre várias funções, a ler sobre várias empresas e a inquirir amigos e ex-alunos da sua faculdade que tinham escolhido a carreira que ele poderia vir a escolher. Todo este esforço, de muitas dezenas de horas de pesquisa e muito à base do estabelecimento de relacionamentos, para tentar perceber com um grande nível de pormenor as oportunidades de crescimento profissional nessa função e nessa empresa, para tentar perceber como seria a progressão salarial, como seria o dia-a-dia no local de trabalho, como seria o processo de aprendizagem, quais seriam as maiores dificuldades na fase de adaptação durante os primeiros meses de trabalho. Ou seja, isto tudo para ficar a conhecer com o maior nível de detalhe possível como seria o seu futuro em cada um caminhos que ele pudesse vir a escolher para a sua vida.

Haverá com certeza várias razões culturais que levam os norte-americanos a fazer tudo isto, nem que seja o simples facto de que as próprias empresas quando avaliam candidatos querem saber que esforços foram feitos para conhecer a empresa e a função. Contudo, há uma razão institucional por detrás destes traços culturais: o ensino universitário é muitíssimo caro. A título de exemplo, a licenciatura de 4 anos na NYU Stern School of Business custa 180.000 dólares. Sim, vocês leram bem! Uma licenciatura numa faculdade bem reputada custa 45.000 dólares por ano. E a isto ainda acrescem os custos de vida; ou seja, estamos a falar de uns 250.000 dólares em despesas por 4 anos de estudo. Os futuros alunos universitários com 18 ou 19 anos de idade chegam ao banco e pedem, muito corajosamente, um belo de um gigantesco student loan. E é óbvio que quem tem uma dívida de 250.000USD para pagar vai encarar a busca de emprego a sério. Todos os alunos querem um emprego promissor que lhes permita pagar a dívida o mais rapidamente possível. Todos querem escolher o emprego certo, foi para isso que eles desembolsaram a crédito esta monstruosa quantia de dinheiro, foi para encontrar o emprego que é o right fit para eles e para encontrar o emprego que compense o preço que foi pago pelo curso. E se não encontrar o emprego certo depois do curso já é mau, ficar desempregado é a ultimate tragedy. Imaginem-se vocês recém-licenciados, sem emprego e com um saldo negativo de 250.000USD na conta... Ninguém quer arriscar ficar desempregado, todos querem encontrar emprego, custe o que custar. E, pela mesma lógica, o processo de avaliação de qual curso tirar e onde tirar também é feito com enorme seriedade e cuidado.

A desvantagem do ensino universitário privado (ou público com preços de privado), segundo os economistas mais à esquerda, e segundo os jovens europeus que se manifestam e se revoltam contra cada pequeno aumento de propinas, é que o acesso ao ensino fica limitado aos jovens de famílias de maiores posses. Mas não! Qualquer pessoa pode pedir um empréstimo para poder ir estudar. O acesso ao ensino fica de facto limitado, mas fica limitado às pessoas que realmente querem tirar um curso e às pessoas que realmente acreditam que o curso vai lhes abrir portas profissionais. Na verdade, e muito curiosamente, até os filhos de pais ricos se endividam para ir estudar. Segundo uma notícia que saiu no site da bloomberg intitulada de “Affluent Parents won’t give kids a free college ride”, os pais com possibilidades geralmente suportam apenas parte das despesas universitárias, e com um simples objectivo: obrigar os filhos a assumir responsabilidades financeiras e encarar o curso e o processo de busca de emprego com seriedade.

Actualmente, em tempos de crise de finanças públicas e de competitividade no nosso país (e não só), muito se fala da necessidade de pôr fim a um sistema económico descrito por muitos como antiquadamente pouco liberal e gerador de parasitas, com a possível privatização do ensino a ser frequentemente colocada na mesa do debate por economistas de direita; e, como sempre, havendo opiniões divergentes sobre as vantagens e desvantagens económicas. Contudo, para mim, a questão que se deve colocar não é económica, simplesmente porque a questão económica parece-me de resposta óbvia. Aqui, as pessoas são obrigadas a desenvolver uma responsabilidade financeira, uma maturidade, uma menor aversão ao risco e um foco na profissão muito mais cedo do que nós. Garanto-vos que se vocês vierem aos Estados Unidos, salvo excepções que sempre as há, vocês não irão encontrar jovens a tirar cursos que são mais que sabidos não terem saída, não irão encontrar pessoas a tirar um curso qualquer com o objectivo primordial de se tornarem “Doutores” ainda que isso em nada os ajude a encontrar emprego, não irão encontrar jovens no último ano do curso sem qualquer ideia do que poderão ser as suas carreiras, e não irão de certeza encontrar marmanjos com quase 30 anos ainda a tocar cavaquinho numa tuna de Coimbra.

Mas a problemática não é só a do (sub)desenvolvimento das responsabilidades pessoais. A problemática é também a do mal que faz aos outros. Sem nem falar da cultura irresponsável colectiva que se propaga contagiosamente, estamos claramente perante um problema de parasitismo. Uma pessoa que fica 8 anos em vez de 4 a tirar um curso numa universidade pública está covardemente a exigir o dobro do esforço aos senhores contribuintes que lhe pagam a faculdade com o rombo brutal que levam no salário todos os meses. Mas ainda há outro problema: se é certo e sabido que não há emprego para todos os jovens que estão a tirar curso de psicologia, porque é que nós, como sociedade, haveremos de viver nesta falácia, onde jovens se preparam para funções inexistentes? Portanto, a questão que se deve colocar é outra. E há de facto uma questão. Mas a questão é cultural. Uma mudança tão radical do sistema com tais impactos significativos na fase jovem das vidas das pessoas molda drasticamente as suas maneiras de ser (basta olhar à minha volta para realizar isso). Como tal, o que temos de nos perguntar é se queremos mudar as nossas vidas, se queremos mudar a idade em que os jovens começam a assumir responsabilidades maiores, se queremos criar uma cultura de endividamento pessoal que obriga as pessoas a esforçarem-se mais porque têm que pagar o que devem, se queremos criar uma cultura mais focada no trabalho, uma cultura mais movida a dinheiro, mais individualista e mais orientada para o sucesso profissional; o que temos de nos perguntar é se queremos mudar a nossa forma de pensar e de viver.

2 comentários:

  1. Uma exposição clara e concisa dos problemas postos pelo actual sistema de educação universitária português partindo de uma simples comparação com um modelo estrangeiro. Muito bom e esclarecedor. Até o governo grego percebe que o actual sistema educativo, semelhante ao nosso, precisa de ser reformado (http://www.economist.com/node/21528318), para quando reformas semelhantes em Portugal?

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  2. Boa reflexão, primão!!! As pessoas veem nos filmes as grandes condições das universidades americanas mas muitas vezes não fazem ideia do que custa o ensino lá, mesmo nas universidades públicas. Eu tive a sorte de ter uma bolsa para estudar lá mas todos os meus colegas trabalhavam um part-time ou tinham feito um empréstimo para conseguir pagar o estudos. Boa sorte por aí primão. Força!

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