São Paulo, 8 de Julho de 2013
Muito
mudou desde aquela capa do The Economist, em finais de 2009, que mostrava a
estátua carioca do Cristo Redentor a levantar voo. Nessa época, os jornais quase
só continham boas notícias sobre o Brasil, o PIB crescia aceleradamente, muitos
ascendiam à classe média, havia uma febre de consumo, grandes IPO’s,
fundos de investimento que eram inaugurados uns atrás dos outros, empresas com
elevadíssimas perspectivas de crescimento, multinacionais brasileiras (bem
capitalizadas num mundo descapitalizado) aumentavam pujantemente os seus
tentáculos, novos milionários e bilionários criavam-se e outros
consolidavam-se. O Brasil era um El Dorado, o gigante que finalmente começava a
andar, enchia-se o peito e gritava-se "é a bola da vez". Hoje, com a
economia bem menos dinâmica e com surtos de instabilidade social, o sentimento
é cada vez mais de pessimismo entre locais e estrangeiros.
Durante
o período do optimismo (durante o qual fiz o meu estágio do MBA no Rio de
Janeiro), resgatavam-se os históricos discursos grandiosos, que vêm já desde
quando o Brasil ainda nem se chamava Brasil, já visíveis na carta de Pero Vaz
de Caminha a El-Rei D. Manuel, invocando as belezas maravilhosas, as riquezas
inigualáveis, o clima invejável, as maiores reservas de água potável, a maior
floresta tropical, as terras mais férteis, as enormes reservas minerais e
petrolíferas, a maior produção de minério de ferro, a maior capacidade de
exportação de carne, café, açúcar e tabaco, a colossal extensão do território,
o povo pacífico e amigável, um lugar de magnífico potencial económico, o país
do futuro. Hoje, quase que se atira a toalha ao chão, há muita desilusão, e
muita chacota, indignação, posturas críticas contra o mau funcionamento de
muita coisa, contra a falta de infraestrutura e serviços públicos, contra o
crime e a corrupção, há receio de um eventual regresso da inflação, aumentou o
deslumbre com a vida lá fora, com o que é europeu e principalmente com o que é
dos EUA, voltou a descrença quanto ao desenvolvimento e à industrialização, é o
país do futuro e sempre o será.
Enfrentando
uma menor demanda chinesa por matérias-primas, um consumo que começa a esbarrar
nos limites do endividamento e muitas medidas governamentais que atentam contra
a iniciativa privada, a economia brasileira encontra de facto bem menos razões
para se apresentar robusta. Mas tal veloz passagem do ufanismo ao desânimo,
tocando por vezes no complexo de inferioridade, apenas mostra que houve muito
exagero nas apreciações que foram feitas acerca do futuro da economia
brasileira. Houve claramente uma euforia
com o momento que era positivo e achou-se cegamente que o que gerava
crescimento estava para ficar. Bem me recordo que havia vozes de discórdia, mas
essas ouviam-se mais baixo, gritar contra uma multidão em marcha apenas nos dá
voz rouca, e o que prevalecia era a excessiva confiança.
Mas
se o optimismo veio em demasia, o mesmo poderá estar a acontecer com este recente
pessimismo. É provável que os próximos tempos (talvez dois ou três anos?) sejam
economicamente mais difíceis no Brasil, que as empresas comecem a demonstrar
mais sintomas do abrandamento e que o (quase) pleno emprego deixe de ser uma
realidade. Mas, desde que o negativismo não se materialize na possibilidade (que,
para já, é aparentemente remota) de regresso aos longos e muito difíceis de
navegar tempos da bancarrota e da hiperinflação, o Brasil continuará a ser o
Brasil, com todos os seus problemas e as suas virtudes, com novos ciclos de
expansão e de contracção pela frente.
Tal
agitação de ânimos em nosso redor complica as nossas tomadas de decisão,
principalmente porque seguir os agitados tende apenas a conduzir-nos a chegadas
e a saídas tardias. Mas, por outro lado, não podemos isolar-nos
intelectualmente e achar que tudo o que se diz está errado, porque muito do que
se diz está certo. Temos de conseguir ter a arte para ouvir e discernir o que é
verdadeiro do que é exagerado, percebendo também que o que é um facto hoje não necessariamente continuará a
sê-lo amanhã e tendo sempre em mente que o que é bom para uns poderá ser mau
para outros, e vice-versa. E isto não se aplica apenas ao Brasil, aplica-se a muitos
outros lugares, inclusive Portugal.
O caminho da mudança
São Paulo, 25 de Junho de 2013
O Brasil acordou para a política. Pequenos desabafos passivos ou meramente satíricos entre amigos durante almoços ou ao sabor de chopps converteram-se repentinamente em ruas cheias de gente gritando e erguendo grandes exigências e severas críticas numa total afronta aos políticos, soltando-se indignações há muito contidas. E assim, como que de um dia para o outro, o povo brasileiro descobriu que pode demandar.
Protestos em São Paulo contra um aumento da tarifa de ônibus transformaram-se e alastraram-se, tornando-se numa gigante e espontânea revolta contra os muitos problemas do país. Centenas de milhares de pessoas na rua, novos, velhos, estudantes, trabalhadores, pobres e ricos, contra uma panóplia de falhas, desde a corrupção dos governantes, ao elevado custo de vida, ao despesismo na construção dos estádios para o Mundial e à falta de qualidade dos serviços públicos como transportes, saúde e educação. Quanto aos culpados, esses parecem muito bem identificados: os políticos; tanto os que estão no poder, como os que já estiveram e os que querem estar.
O governo, transparecendo medo, veio prontamente anunciar a revogação dos aumentos das tarifas de ônibus em vários lugares do país. Em consequência, a manifestação fortaleceu-se e veio para a rua exigir mais. E o governo continuou a decidir sob as ordens dos protestos: anulou-se o programado reajuste anual das portagens das rodovias de São Paulo, anunciaram-se umas quantas reduções de impostos e de outras tarifas de transportes, e a Presidente Dilma Rousseff veio discursar promessas de responsabilidade fiscal, de reforma política, de combate à corrupção e de desenvolvimento dos sistemas de transportes, de saúde e de educação. Muito disto soou a populismo, principalmente se recordarmos que estamos apenas a cerca de um ano das eleições. Só faltava mesmo mandar prender de imediato alguns dos acusados do mensalão para que assim se conseguisse levar o povo à euforia... E, a rapidez foi tal que fez destes anúncios algo pouco democrático, com a autoridade a ceder à vontade dos que mais fizeram barulho, levantando-se a questão se isto foi democracia ou barulhocracia. Acresce que, apesar dos anúncios grandiosos e de tom estadista, além da redução de tarifas e de impostos, houve muito pouco de novo, fingindo-se que não existiram os planos PAC 1 e PAC 2 que muito prometeram e pouco fizeram e fingindo-se que a vontade de pôr mão na corrupção é uma coisa nova. E fica também a dúvida de como é que os governantes vão conciliar cortes de tarifas e de impostos e novos planos de investimento com o comprometimento em manter a sanidade orçamental, especialmente num momento em que a economia desacelera e a inflação aumenta. Esperamos para ver, mas provavelmente não vão passar das meras palavras.
Contudo, independentemente da acção do governo, as manifestações são uma grande vitória para o Brasil. Num país onde a corrupção e o crime proliferam, onde muito do que é público funciona mal, e onde os governantes vivem confortáveis com tais situações, somente uma forte vontade do povo tem capacidade para gerar mudança. É certo que as reivindicações têm sido difusas, e por vezes com pouco sentido, tal como a financeiro-ignorante exigência de tornar os transportes públicos gratuitos. Mas, no seu grosso, são mais do que legítimas, querendo a população apenas que o Estado cumpra a sua obrigação: que proteja os cidadãos da insegurança e do crime e que use as verbas recolhidas sob a forma de impostos para preservar e desenvolver os espaços e sistemas públicos. Agora os governantes sentem que estão sob uma intransigente apreciação, sob o olhar bem atento de quem eles deveriam estar a representar. E essa pressão é boa para o país, principalmente porque eles sabem que isto não é uma revolta contra um problema temporário. Eles sabem que, com a taxa de desemprego em níveis historicamente baixos e após uma década de fortes melhorias na qualidade de vida da população, os protestos nascem não de um desespero com uma situação actual, embora esta não esteja tão boa quanto já esteve, mas da consciencialização por parte de pessoas em ascensão cultural e económica de que há problemas e que muitas coisas têm que ser diferentes. E, tirando alguns casos em que os nervos se exaltaram e outros em que selvagens se aproveitaram da confusão para roubar e depredar, as manifestações têm sido civilizadas e pacíficas. Acho que, principalmente por isso, representam um marco histórico para o Brasil. Uma viragem, em que queixas passivas se transformaram numa real vontade de mudar e de construir.
Ainda é cedo para entendermos o impacto de tudo isto. E às vezes assusta o facto de que as manifestações exibem um fundo de revolta contra o mau funcionamento da democracia, pois, na ausência de uma nova ideologia e na existência de um repúdio popular a uma eventual ditadura, tem-se mesmo que se conseguir completar a difícil e trabalhosa tarefa de melhorar as instituições democráticas existentes, porque há o risco de emergir a anarquia. Por isso, é preciso ter a calma e a paciência inerentes à compreensão de que nada vai mudar de um dia para o outro: elevar os sistemas de transportes, justiça, saúde e educação a patamares desenvolvidos é uma tarefa para vários e talvez longos anos. Mas, por outro lado, não se pode parar, porque se a população voltar à normalidade, os governantes prontamente também o farão.
Mediante tão árduo caminho, o que vai garantir a mudança não é a reiteração de promessas homéricas por parte do governo, mas uma vontade da população em não deixar que esta exteriorização da indignação se torne efémera, e contribuir para o progresso do país no dia-a-dia, com cada um dos cidadãos a tentar fazer com que o que está em seu redor vá melhorando gradualmente, porque uma vontade revolucionária de mudar tudo e de um dia para o outro pouco deverá conseguir e comporta um risco elevado de descambar no caos. Mas, acima de tudo, o que é preciso é que a descrença que agora virou esperança assim persista.
O Brasil acordou para a política. Pequenos desabafos passivos ou meramente satíricos entre amigos durante almoços ou ao sabor de chopps converteram-se repentinamente em ruas cheias de gente gritando e erguendo grandes exigências e severas críticas numa total afronta aos políticos, soltando-se indignações há muito contidas. E assim, como que de um dia para o outro, o povo brasileiro descobriu que pode demandar.
Protestos em São Paulo contra um aumento da tarifa de ônibus transformaram-se e alastraram-se, tornando-se numa gigante e espontânea revolta contra os muitos problemas do país. Centenas de milhares de pessoas na rua, novos, velhos, estudantes, trabalhadores, pobres e ricos, contra uma panóplia de falhas, desde a corrupção dos governantes, ao elevado custo de vida, ao despesismo na construção dos estádios para o Mundial e à falta de qualidade dos serviços públicos como transportes, saúde e educação. Quanto aos culpados, esses parecem muito bem identificados: os políticos; tanto os que estão no poder, como os que já estiveram e os que querem estar.
O governo, transparecendo medo, veio prontamente anunciar a revogação dos aumentos das tarifas de ônibus em vários lugares do país. Em consequência, a manifestação fortaleceu-se e veio para a rua exigir mais. E o governo continuou a decidir sob as ordens dos protestos: anulou-se o programado reajuste anual das portagens das rodovias de São Paulo, anunciaram-se umas quantas reduções de impostos e de outras tarifas de transportes, e a Presidente Dilma Rousseff veio discursar promessas de responsabilidade fiscal, de reforma política, de combate à corrupção e de desenvolvimento dos sistemas de transportes, de saúde e de educação. Muito disto soou a populismo, principalmente se recordarmos que estamos apenas a cerca de um ano das eleições. Só faltava mesmo mandar prender de imediato alguns dos acusados do mensalão para que assim se conseguisse levar o povo à euforia... E, a rapidez foi tal que fez destes anúncios algo pouco democrático, com a autoridade a ceder à vontade dos que mais fizeram barulho, levantando-se a questão se isto foi democracia ou barulhocracia. Acresce que, apesar dos anúncios grandiosos e de tom estadista, além da redução de tarifas e de impostos, houve muito pouco de novo, fingindo-se que não existiram os planos PAC 1 e PAC 2 que muito prometeram e pouco fizeram e fingindo-se que a vontade de pôr mão na corrupção é uma coisa nova. E fica também a dúvida de como é que os governantes vão conciliar cortes de tarifas e de impostos e novos planos de investimento com o comprometimento em manter a sanidade orçamental, especialmente num momento em que a economia desacelera e a inflação aumenta. Esperamos para ver, mas provavelmente não vão passar das meras palavras.
Contudo, independentemente da acção do governo, as manifestações são uma grande vitória para o Brasil. Num país onde a corrupção e o crime proliferam, onde muito do que é público funciona mal, e onde os governantes vivem confortáveis com tais situações, somente uma forte vontade do povo tem capacidade para gerar mudança. É certo que as reivindicações têm sido difusas, e por vezes com pouco sentido, tal como a financeiro-ignorante exigência de tornar os transportes públicos gratuitos. Mas, no seu grosso, são mais do que legítimas, querendo a população apenas que o Estado cumpra a sua obrigação: que proteja os cidadãos da insegurança e do crime e que use as verbas recolhidas sob a forma de impostos para preservar e desenvolver os espaços e sistemas públicos. Agora os governantes sentem que estão sob uma intransigente apreciação, sob o olhar bem atento de quem eles deveriam estar a representar. E essa pressão é boa para o país, principalmente porque eles sabem que isto não é uma revolta contra um problema temporário. Eles sabem que, com a taxa de desemprego em níveis historicamente baixos e após uma década de fortes melhorias na qualidade de vida da população, os protestos nascem não de um desespero com uma situação actual, embora esta não esteja tão boa quanto já esteve, mas da consciencialização por parte de pessoas em ascensão cultural e económica de que há problemas e que muitas coisas têm que ser diferentes. E, tirando alguns casos em que os nervos se exaltaram e outros em que selvagens se aproveitaram da confusão para roubar e depredar, as manifestações têm sido civilizadas e pacíficas. Acho que, principalmente por isso, representam um marco histórico para o Brasil. Uma viragem, em que queixas passivas se transformaram numa real vontade de mudar e de construir.
Ainda é cedo para entendermos o impacto de tudo isto. E às vezes assusta o facto de que as manifestações exibem um fundo de revolta contra o mau funcionamento da democracia, pois, na ausência de uma nova ideologia e na existência de um repúdio popular a uma eventual ditadura, tem-se mesmo que se conseguir completar a difícil e trabalhosa tarefa de melhorar as instituições democráticas existentes, porque há o risco de emergir a anarquia. Por isso, é preciso ter a calma e a paciência inerentes à compreensão de que nada vai mudar de um dia para o outro: elevar os sistemas de transportes, justiça, saúde e educação a patamares desenvolvidos é uma tarefa para vários e talvez longos anos. Mas, por outro lado, não se pode parar, porque se a população voltar à normalidade, os governantes prontamente também o farão.
Mediante tão árduo caminho, o que vai garantir a mudança não é a reiteração de promessas homéricas por parte do governo, mas uma vontade da população em não deixar que esta exteriorização da indignação se torne efémera, e contribuir para o progresso do país no dia-a-dia, com cada um dos cidadãos a tentar fazer com que o que está em seu redor vá melhorando gradualmente, porque uma vontade revolucionária de mudar tudo e de um dia para o outro pouco deverá conseguir e comporta um risco elevado de descambar no caos. Mas, acima de tudo, o que é preciso é que a descrença que agora virou esperança assim persista.
Processo em curso
São Paulo, 16 de Junho de 2013
Em 2007, alguns brasileiros conhecidos, entre eles Seu Jorge, Djavan, Milton Nascimento e Ildi Silva, submeteram-se a testes genéticos, em busca da sua ancestralidade (iniciativa da BBC Brasil). Os resultados foram muito pouco surpreendentes: encontraram-se raízes africanas, ameríndias e europeias, e em proporções que evidenciam várias gerações de mestiçagem. E, eles não são, de todo, excepções.
44% da população brasileira considera-se mestiça (IBGE 2009). E a este já por si alto percentual ainda acrescerão todos aqueles que tem ascendentes de outra raça e que não o sabem ou que por qualquer razão não o desejam declarar. Na verdade, nem precisamos de estatísticas, basta andar pelas ruas para verificá-lo, parecem infinitas as tonalidades de pele, uns mais claros, outros mais escuros, um longo dégradé entre o negro e o branco, passando pelo vermelho e o amarelo. A misturada é tal que o ex-Presidente do Brasil (e também ele mestiço) Fernando Henrique Cardoso uma vez jocosamente escreveu: "de vez em quando, pais de pele clara têm um filho mais escuro e ninguém desconfia, pois ninguém sabe o que aconteceu umas quantas gerações atrás."
E mesmo o branco brasileiro é frequentemente uma mescla de brancos de origens distintas, como a portuguesa, a italiana, a espanhola, a holandesa e a alemã. Tal como o negro brasileiro, descendente de diversas etnias oriundas de lugares como o que são hoje o Congo, Angola e Moçambique. E ainda há as ascendências de árabes, de japoneses e de indígenas americanos. É uma multiplicidade de combinações. E é uma mestiçagem que, tanto quanto sei, é singular.
Perante tal evidência, já na década de 30, o sociólogo Gilberto Freyre começou a descrever a miscigenação racial brasileira como elemento mitigador das desigualdades sociais, referindo-se posteriormente ao Brasil como sendo "a mais avançada democracia racial do mundo”. Aparentemente muitos foram os seus críticos, e porventura haverá ainda hoje quem questione se em vez de sociologia, Freyre não estaria a praticar puro lirismo ou então propaganda política. Contudo, ainda que talvez um pouco exagerado, ele terá o seu quê de razão. Basta pensar que, nos EUA, o casamento interracial passou a ser legal em todo o seu território somente a partir de 1967 e que, na África do Sul, o apartheid foi abolido apenas no surrealmente tardio ano de 1994. Ao invés, no Brasil, o cruzamento vem acontecendo desde o início da colonização dos portugueses, que, segundo historiadores, por já serem eles uma consequência de fusões (lusitanos com celtas, romanos, germânicos, muçulmanos e até judeus), associado ao facto da sua maioria ter chegado à colónia desacompanhado de mulher, tinham uma maior propensão para se envolverem com mulheres das populações indígena e escrava.
Contudo, a harmonia não é perfeita. Longe disso... Existem desigualdades, e diria até que muito vincadas. Segundo um inquérito do IBGE, em 2009, entre as pessoas auto-declarados negras ou mestiças apenas 5% tinham curso superior e 13% eram analfabetas, em contraste com as taxas de 15% e de 6%, respectivamente, entre as pessoas auto-declaradas brancas. Além disso, o salário médio do primeiro grupo era 40% inferior ao do segundo. E, qualquer olhar minimamente atento rapidamente repara que as classe mais altas são essencialmente brancas, e que os mais desfavorecidos são mulatos e negros. Outra pesquisa, de 2011, mostra que 64% dos brasileiros considera que a raça interfere na qualidade de vida dos cidadãos. Sim, existe racismo no Brasil. Visível não só nos desníveis económicos, mas também em alguns preconceitos e tensões que vão transparecendo no que se ouve e no que se lê.
Contudo, e felizmente para a igualdade de direitos, as coisas parecem estar a mudar. Durante os últimos 10 anos, nos quais o Brasil viveu um período de franco desenvolvimento económico, das 40 milhões de pessoas que ascenderam à classe média, 75% são negros (Instituto Data Popular). Há também algumas personalidades de referência, além daquelas dos mundos (mais meritocráticos?) dos desportos e das artes, que hoje são negras, entre as quais se destaca o Joaquim Barbosa (Presidente do Supremo Tribunal de Justiça). E, agora olhando para o futuro, o crescente desenvolvimento cultural que o mundo tem vindo a presenciar deverá fazer com que os preconceitos irracionais como racismo tendam a diminuir, tornando-se cada vez menos aceites, e no limite invertendo-se a situação, gerando-se um ambiente impróprio para quem tem a ignorância de querer discriminar. Quer dizer, pelo menos assim o desejamos. E o Brasil, o país com mais afro-descendentes fora de África, precisa disso.
Num mundo onde os ideais passam cada vez mais por desprezar o racismo e onde as sociedades que conseguem integrar pessoas de origens diferentes são vistas como um símbolo de cosmopolitismo e de desenvolvimento cultural, mas também num mundo onde a realidade se distancia muito do idealizado, o Brasil destaca-se com os seus 5 séculos de miscigenação. E, se conseguir ter a capacidade para resolver os problemas raciais que ainda o assolam, e sem a qual não poderá se transformar na Grande Nação que ambiciona ser, o Brasil poderá tornar-se num exemplo de equilibrada convivência entre diferentes seres humanos. Exemplo que tanto faz falta ao mundo.
Em 2007, alguns brasileiros conhecidos, entre eles Seu Jorge, Djavan, Milton Nascimento e Ildi Silva, submeteram-se a testes genéticos, em busca da sua ancestralidade (iniciativa da BBC Brasil). Os resultados foram muito pouco surpreendentes: encontraram-se raízes africanas, ameríndias e europeias, e em proporções que evidenciam várias gerações de mestiçagem. E, eles não são, de todo, excepções.
44% da população brasileira considera-se mestiça (IBGE 2009). E a este já por si alto percentual ainda acrescerão todos aqueles que tem ascendentes de outra raça e que não o sabem ou que por qualquer razão não o desejam declarar. Na verdade, nem precisamos de estatísticas, basta andar pelas ruas para verificá-lo, parecem infinitas as tonalidades de pele, uns mais claros, outros mais escuros, um longo dégradé entre o negro e o branco, passando pelo vermelho e o amarelo. A misturada é tal que o ex-Presidente do Brasil (e também ele mestiço) Fernando Henrique Cardoso uma vez jocosamente escreveu: "de vez em quando, pais de pele clara têm um filho mais escuro e ninguém desconfia, pois ninguém sabe o que aconteceu umas quantas gerações atrás."
E mesmo o branco brasileiro é frequentemente uma mescla de brancos de origens distintas, como a portuguesa, a italiana, a espanhola, a holandesa e a alemã. Tal como o negro brasileiro, descendente de diversas etnias oriundas de lugares como o que são hoje o Congo, Angola e Moçambique. E ainda há as ascendências de árabes, de japoneses e de indígenas americanos. É uma multiplicidade de combinações. E é uma mestiçagem que, tanto quanto sei, é singular.
Perante tal evidência, já na década de 30, o sociólogo Gilberto Freyre começou a descrever a miscigenação racial brasileira como elemento mitigador das desigualdades sociais, referindo-se posteriormente ao Brasil como sendo "a mais avançada democracia racial do mundo”. Aparentemente muitos foram os seus críticos, e porventura haverá ainda hoje quem questione se em vez de sociologia, Freyre não estaria a praticar puro lirismo ou então propaganda política. Contudo, ainda que talvez um pouco exagerado, ele terá o seu quê de razão. Basta pensar que, nos EUA, o casamento interracial passou a ser legal em todo o seu território somente a partir de 1967 e que, na África do Sul, o apartheid foi abolido apenas no surrealmente tardio ano de 1994. Ao invés, no Brasil, o cruzamento vem acontecendo desde o início da colonização dos portugueses, que, segundo historiadores, por já serem eles uma consequência de fusões (lusitanos com celtas, romanos, germânicos, muçulmanos e até judeus), associado ao facto da sua maioria ter chegado à colónia desacompanhado de mulher, tinham uma maior propensão para se envolverem com mulheres das populações indígena e escrava.
Contudo, a harmonia não é perfeita. Longe disso... Existem desigualdades, e diria até que muito vincadas. Segundo um inquérito do IBGE, em 2009, entre as pessoas auto-declarados negras ou mestiças apenas 5% tinham curso superior e 13% eram analfabetas, em contraste com as taxas de 15% e de 6%, respectivamente, entre as pessoas auto-declaradas brancas. Além disso, o salário médio do primeiro grupo era 40% inferior ao do segundo. E, qualquer olhar minimamente atento rapidamente repara que as classe mais altas são essencialmente brancas, e que os mais desfavorecidos são mulatos e negros. Outra pesquisa, de 2011, mostra que 64% dos brasileiros considera que a raça interfere na qualidade de vida dos cidadãos. Sim, existe racismo no Brasil. Visível não só nos desníveis económicos, mas também em alguns preconceitos e tensões que vão transparecendo no que se ouve e no que se lê.
Contudo, e felizmente para a igualdade de direitos, as coisas parecem estar a mudar. Durante os últimos 10 anos, nos quais o Brasil viveu um período de franco desenvolvimento económico, das 40 milhões de pessoas que ascenderam à classe média, 75% são negros (Instituto Data Popular). Há também algumas personalidades de referência, além daquelas dos mundos (mais meritocráticos?) dos desportos e das artes, que hoje são negras, entre as quais se destaca o Joaquim Barbosa (Presidente do Supremo Tribunal de Justiça). E, agora olhando para o futuro, o crescente desenvolvimento cultural que o mundo tem vindo a presenciar deverá fazer com que os preconceitos irracionais como racismo tendam a diminuir, tornando-se cada vez menos aceites, e no limite invertendo-se a situação, gerando-se um ambiente impróprio para quem tem a ignorância de querer discriminar. Quer dizer, pelo menos assim o desejamos. E o Brasil, o país com mais afro-descendentes fora de África, precisa disso.
Num mundo onde os ideais passam cada vez mais por desprezar o racismo e onde as sociedades que conseguem integrar pessoas de origens diferentes são vistas como um símbolo de cosmopolitismo e de desenvolvimento cultural, mas também num mundo onde a realidade se distancia muito do idealizado, o Brasil destaca-se com os seus 5 séculos de miscigenação. E, se conseguir ter a capacidade para resolver os problemas raciais que ainda o assolam, e sem a qual não poderá se transformar na Grande Nação que ambiciona ser, o Brasil poderá tornar-se num exemplo de equilibrada convivência entre diferentes seres humanos. Exemplo que tanto faz falta ao mundo.
Mais que tudo, é tropical
São Paulo, 30 de Abril de 2013
Usam o verbo
"falar" como se fosse "dizer", o "ter" como se
fosse "haver", começam uma frase no tu e acabam-na no você. Falam no
gerúndio. São bem mais relaxados perante as regras gramaticais. Preferem o
"diz para ela" ao "diz-lhe", o "vou na praia" ao
"vou à praia". Desconhecem algumas palavras nossas, e nós também
desconhecemos algumas deles. Aqui "perceber" não significa "entender",
"gelado" não significa "sorvete" e "peão" não significa
"pedestre". A língua portuguesa aqui é usada de uma forma diferente.
Alguns de nós criticam, consideram-na desestruturada, alguns até a chamam de errada. Outros adoram, a musicalidade do seu sotaque, a desenvolta criatividade das suas gírias. Gostos são subjectivos! O que é um facto é que, se o português tem hoje a importância que tem, deve-se principalmente ao Brasil, que, com quase 200 milhões de habitantes, tem 75% de todos os falantes desta nossa língua, em vincado contraste com os menos de 4% que habitam em Portugal. Eles são o 5º país com mais território, o 5º mais populoso e a 6ª maior economia do mundo. Enquanto que nós nos queixamos de ser pequenos e periféricos, eles são grandes e o centro da região deles. E tais discrepâncias só tenderão a acentuar-se no futuro, pois estima-se que, em 2050, o Brasil tenha 260 milhões de habitantes (US Census Bureau) e seja a 4ª maior economia mundial (PwC), enquanto que Portugal permanecerá com cerca de 10 milhões de pessoas e a sua economia tornar-se-á relativamente menor.
E, se em Portugal temos o gosto dividido em relação ao português que se fala em terras de Vera Cruz, os estrangeiros parecem bem unânimes. Já foram vários os que conheci que gostariam de aprender ou que já estão a aprender português simplesmente porque acham-no bonito. Mas não é o nosso modo de falar que eles apreciam, não é da nossa maior elaboração sintáctica nem do nosso sotaque cheio de erres e de ches. Eles querem é aprender o português do Brasil, com as gírias daqui, eles gostam é do jeito de falar gingão, cantado e soletrado.
Quanto aos desvios gramaticais, não sei se temos muita moral para lhes apontar o dedo. Primeiro, porque uma coisa é o linguajar de rua e outra coisa é a linguagem formal - se, no Brasil, abrirmos um livro, lermos um contrato ou ouvirmos um discurso de alguém com níveis de educação mais elevados, constatamos que as nossas diferenças linguísticas afinal até são bem escassas. Segundo, porque nós também temos telhados de vidro: em Portugal muito se diz "estivestes" e "muita bom", e muito se confunde o "esqueces-te com o esqueceste", o "gostava com o gostaria" e o "benvindo" com o "bem-vindo". E se eles misturam o tu com o você, hão de reparar que nós misturamos o vós com o vocês... Acho que muitas vezes criticamos o que eles dizem simplesmente porque é diferente, e sendo assim se calhar o problema passa por uma falta nossa de abertura de mente.
Na verdade, acho que o não ser igual evidencia acima de tudo diversidade e riqueza cultural. O português aqui falado deixou de ser puramente europeu, foi moldado pelas distâncias e pelo tempo, foi tropicalizado, influenciado e adocicado pelo quimbundo e pelo tupi, indo desvendando no seu jeito e no seu vocabulário uma História fascinante e bela.
As normas gramaticais existem, e devemos sim zelar pela difusão do seu conhecimento e pelo seu cumprimento. Mas só em devaneio podemos exigir que toda a gente as domine, tal como não podemos forçar alguém a ter vontade de as seguir. Nem tampouco é expectável que o português informal seja igual em todos os cantos do mundo onde ele é falado. Contudo, independentemente de como se fala coloquialmente, devemos preservar e solidificar a unidade do português formal, pois isso vai ajudar a fazer com que esta língua se mantenha uma só. E diante de uma necessidade de reconvergência ou de simples alteração, parece-me óbvio, dada a desproporcionalidade das dimensões, qual o lado que tem que ceder mais.
Quer queiramos quer não, o Brasil tornou-se o centro da língua portuguesa, enquanto que em Portugal existe apenas um número residual de falantes. E à medida que este vasto país vai diminuindo o desnível económico face às nações mais desenvolvidas, mais verdadeira essa verdade se torna. Não importa onde a língua nasceu, pois isso é passado, importa o que ela é hoje e o que será no futuro, e nós devemos ter a capacidade e o pragmatismo para reconhecê-lo e aceitá-lo. E, embora haja certamente muitos fatalistas lusitanos que se queixarão por sermos cada vez menores e por já nem a nossa própria língua controlarmos, pelo contrário, vejo com optimismo e entusiasmo o facto de fazermos parte duma comunidade linguística e cultural que se tornou muito maior do que nós e que continua crescer e a diversificar-se muito além das nossas fronteiras, pois isso embeleza-nos, alarga-nos os horizontes e cria-nos oportunidades.
Alguns de nós criticam, consideram-na desestruturada, alguns até a chamam de errada. Outros adoram, a musicalidade do seu sotaque, a desenvolta criatividade das suas gírias. Gostos são subjectivos! O que é um facto é que, se o português tem hoje a importância que tem, deve-se principalmente ao Brasil, que, com quase 200 milhões de habitantes, tem 75% de todos os falantes desta nossa língua, em vincado contraste com os menos de 4% que habitam em Portugal. Eles são o 5º país com mais território, o 5º mais populoso e a 6ª maior economia do mundo. Enquanto que nós nos queixamos de ser pequenos e periféricos, eles são grandes e o centro da região deles. E tais discrepâncias só tenderão a acentuar-se no futuro, pois estima-se que, em 2050, o Brasil tenha 260 milhões de habitantes (US Census Bureau) e seja a 4ª maior economia mundial (PwC), enquanto que Portugal permanecerá com cerca de 10 milhões de pessoas e a sua economia tornar-se-á relativamente menor.
E, se em Portugal temos o gosto dividido em relação ao português que se fala em terras de Vera Cruz, os estrangeiros parecem bem unânimes. Já foram vários os que conheci que gostariam de aprender ou que já estão a aprender português simplesmente porque acham-no bonito. Mas não é o nosso modo de falar que eles apreciam, não é da nossa maior elaboração sintáctica nem do nosso sotaque cheio de erres e de ches. Eles querem é aprender o português do Brasil, com as gírias daqui, eles gostam é do jeito de falar gingão, cantado e soletrado.
Quanto aos desvios gramaticais, não sei se temos muita moral para lhes apontar o dedo. Primeiro, porque uma coisa é o linguajar de rua e outra coisa é a linguagem formal - se, no Brasil, abrirmos um livro, lermos um contrato ou ouvirmos um discurso de alguém com níveis de educação mais elevados, constatamos que as nossas diferenças linguísticas afinal até são bem escassas. Segundo, porque nós também temos telhados de vidro: em Portugal muito se diz "estivestes" e "muita bom", e muito se confunde o "esqueces-te com o esqueceste", o "gostava com o gostaria" e o "benvindo" com o "bem-vindo". E se eles misturam o tu com o você, hão de reparar que nós misturamos o vós com o vocês... Acho que muitas vezes criticamos o que eles dizem simplesmente porque é diferente, e sendo assim se calhar o problema passa por uma falta nossa de abertura de mente.
Na verdade, acho que o não ser igual evidencia acima de tudo diversidade e riqueza cultural. O português aqui falado deixou de ser puramente europeu, foi moldado pelas distâncias e pelo tempo, foi tropicalizado, influenciado e adocicado pelo quimbundo e pelo tupi, indo desvendando no seu jeito e no seu vocabulário uma História fascinante e bela.
As normas gramaticais existem, e devemos sim zelar pela difusão do seu conhecimento e pelo seu cumprimento. Mas só em devaneio podemos exigir que toda a gente as domine, tal como não podemos forçar alguém a ter vontade de as seguir. Nem tampouco é expectável que o português informal seja igual em todos os cantos do mundo onde ele é falado. Contudo, independentemente de como se fala coloquialmente, devemos preservar e solidificar a unidade do português formal, pois isso vai ajudar a fazer com que esta língua se mantenha uma só. E diante de uma necessidade de reconvergência ou de simples alteração, parece-me óbvio, dada a desproporcionalidade das dimensões, qual o lado que tem que ceder mais.
Quer queiramos quer não, o Brasil tornou-se o centro da língua portuguesa, enquanto que em Portugal existe apenas um número residual de falantes. E à medida que este vasto país vai diminuindo o desnível económico face às nações mais desenvolvidas, mais verdadeira essa verdade se torna. Não importa onde a língua nasceu, pois isso é passado, importa o que ela é hoje e o que será no futuro, e nós devemos ter a capacidade e o pragmatismo para reconhecê-lo e aceitá-lo. E, embora haja certamente muitos fatalistas lusitanos que se queixarão por sermos cada vez menores e por já nem a nossa própria língua controlarmos, pelo contrário, vejo com optimismo e entusiasmo o facto de fazermos parte duma comunidade linguística e cultural que se tornou muito maior do que nós e que continua crescer e a diversificar-se muito além das nossas fronteiras, pois isso embeleza-nos, alarga-nos os horizontes e cria-nos oportunidades.
Outros nós
São Paulo, 28 de Fevereiro de 2013
Vindo dos EUA, chegar ao Brasil suscita uma forte sensação de familiaridade. Senti-o mais do que uma vez, mais no Rio de Janeiro do que em São Paulo. São ruas e ruas com calçada portuguesa, a comida tão parecida com a nossa, em alguns casos igual. Ouvir a nossa língua, poder compreender tudo o que nos dizem sem grande esforço. Chegar a um novo país já conhecendo muito sobre ele. Aqui, desenvencilhamo-nos de uma forma muito natural, apanhamos rapidamente como as coisas funcionam, integramo-nos facilmente. E, numa altura em que muitas pessoas de vários países estão aqui imigradas, nota-se marcadamente que nenhum outro estrangeiro consegue entender e viver o Brasil como um português.
O idioma faz toda a diferença. Facilita a resolução dos problemas do dia-a-dia, possibilita as mais variadas interacções sociais e amizades, abre-nos portas profissionais, dá-nos informação e confiança pelo constante entendimento do que se fala em nosso redor.
Mas vai muito além da língua. Quando cheguei aos EUA, deparei-me com diferenças culturais muito expressivas. Os americanos têm uma forma de viver única, que, embora tenha bases ocidentais, rege-se muitas vezes por valores muito distintos dos nossos. No Brasil, as diferenças têm se revelado muito menores. Faz sentido, de outra forma não poderia ser: fomos parte do mesmo país durante mais de três séculos. É certo que a cultura se molda com o tempo, podendo mudar tão rapidamente quanto de uma geração para outra, muito mais com dois séculos de separação política e um Atlântico de distância. Mas há determinados traços que mostram ter perdurado, parece que estão de tal forma enraizados na sociedade que aguentaram praticamente inalterados décadas após décadas, preservados também com a ajuda das muitas vagas de imigração portuguesa que ocorreram ao longo dos tempos. E de facto muita coisa parece ter vindo directamente de Portugal: os valores da família, o espírito mais colectivista, os princípios católicos, o viver em casa dos pais até idade tardia, a hospitalidade, a miscigenação racial, o sentimento de simpatia por outros povos, a ideia de que lá fora tudo funciona melhor, a vivência do dia pelo dia, a cultura do almoço, a desorganização, a burocracia, a capacidade de contornar essa burocracia e de viver bem nessa desorganização, o jeitinho ou o desenrasca.
Mas não veio só daí para aqui, são inúmeros os traços que vieram daqui para aí, algo muito mais contemporâneo, permitido pelo surreal desenvolvimento das telecomunicações: TV, internet, facebook, whatsapp, e pela enorme facilidade em viajar, que proporcionam muito mais contactos entre os dois povos e levam a uma re-convergência cultural em muitos aspectos. Crescemos a ver as novelas deles, a ouvir todo o tipo de música deles, desde ao Funk das favelas ao Bossa Nova de Ipanema, vemos mais filmes deles do que nossos, usamos cada vez mais gíria brasileira, vamos enchendo as nossas praias com mini-biquinis e caipirinhas. Quantos não são os portugueses que têm um pouco de Brasil em si?
Tudo isto facilita a nossa interacção com este país e com este povo, tudo isto nos faz sentir mais próximos de casa aqui do que, por exemplo, nos EUA, na Alemanha ou na China... E proporciona-se um fenómeno singular: em nenhum outro país que morei ou visitei vi os portugueses tão bem integrados com a população local. Aqui vêem-se grupos de amigos constituídos por portugueses e brasileiros.
Temos uma visão do Brasil e um saber estar nele muito diferente de todos os outros estrangeiros. Pelo que sabemos e pelo que somos, temos a capacidade de experienciar o Brasil por inteiro. Verdade seja dita: não somos bem estrangeiros! Podemos gostar ou desgostar de várias coisas no Brasil, mas estrangeiros aqui não nos sentimos. Somos brasileiros em muitas vertentes, tal como eles são portugueses em muitas outras, separámo-nos politicamente, mas não somos independentes. E curioso, hoje que tanto se fala do europeísmo e de uma possível federação europeia, damos por nós a redescobrir que temos muito mais a ver com os brasileiros do que com a maioria dos povos europeus.
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