Os Novos Emigrantes Portugueses

Nova Iorque, 2 de Julho de 2011

Pego no telemóvel, abro o chat e escrevo ao Vasco: "Vou morar para São Paulo. Daqui a uns 6 meses estou aí." "Boa! Cá te espero." responde ele. "Olga, como é que andas?" "Estou óptima! Estou agora a entrar no avião para Maputo." "Lourenço Marques!..." corrijo eu na brincadeira. “Olha, afinal já não vou aí passar uns dias.” digo à Inês de Londres. "A minha roommate está cheia de febre. E estou farta destes franceses que me discriminam só porque não falo correctamente a língua deles." escreve-me a Joana de Paris. "Quando é que voltas?" pergunta a Filipa, "retornada" de Barcelona. "Epah, afinal não volto. Vou ficar por aqui mais uns 6 meses e depois arranco para São Paulo." respondo eu. "Miguel, vou ser Mãe!" escreve-me a Maria de Madrid. "Falconi, como é que tu fizeste com o visto de trabalho quando estagiaste no ano passado no Rio de Janeiro? É que eu vou para São Paulo fazer o meu estágio." pergunta-me a Rita de Singapura. "Isto por aqui não anda nada fácil." diz-me o Diogo, "retornado" de Londres. "João, por onde é que andas agora?" "Estou em Lisboa, vim há umas semanas de um projecto em Singapura, e estou prestes a arrancar para um projecto em Moscovo." "Vais estar em Nova Iorque no final de Julho? Vou aí de férias." escreve-me a Adriana do Rio de Janeiro. "Vou fazer um projecto de 10 meses em Nice, em França." diz-me o meu primo, seguindo os passos do seu irmão que trabalha já há alguns anos em Toulouse. "Compras-me um iPad aí nos States? É que aí é bem mais barato." pergunta-me o Francisco de Madrid. "O meu namorado vai fazer um projecto para a Guiné-Conacri. Não é a Bissau, é a Conacri... Não é a Guiné Portuguesa, é a Guiné Francesa." explica-me a Carina. "Puto, vou ficar mais uns meses em Nova Iorque." escrevo eu ao André que estudou comigo na Católica e que agora vive no mesmo bairro que eu aqui na grande maçã. É uma nova geração de emigrantes.

Como o artigo "Los portugueses vuelven a Angola" do jornal espanhol El País diz, os emigrantes portugueses já não são pessoas de baixas qualificações que arrancam do seu país em busca de uma vida melhor desempenhando ofícios como empregada doméstica ou servente de obra. A nova geração de emigrantes é altamente qualificada, desde gestores a advogados e engenheiros, que saem do seu país à procura de uma nova experiência e de um novo desafio profissional e pessoal, mas também à procura de uma saída imediata da condição de "quinhenteurista" descrita pelo movimento nacional Geração à Rasca.

É difícil observar esta mudança sem pensar nas suas consequências. E a primeira que me vem à mente é sobre a imagem de Portugal cá fora. Se os emigrantes de baixas qualificações transmitiram em tempos uma ideia de um Portugal pobre e feio, os emigrantes de elevadas qualificações fazem agora exactamente o contrário. Tenho amigos brasileiros que antes quando pensavam em portugueses vinha-lhes apenas e imediatamente a imagem de padeiros e bigodudas, sendo que agora começam a ver que Portugal tem pessoas inteligentes e miúdas giras. Por sua vez, os norte-americanos vão aprendendo para seu grande espanto, vindo de mim parte desse contributo, que a língua portuguesa não nasceu no Brasil, mas em Portugal, e que existem vários países espalhados por África, Ásia e Oceania que também falam português.

Mas há uma coisa mais interessante que o efeito benéfico na imagem de Portugal. Contrariamente aos emigrantes portugueses que antigamente abandonavam o seu país em busca de uma vida melhor, a maioria dos novos emigrantes, comigo incluído, ambiciona um dia voltar para Portugal. A maioria vem cá para fora pela experiência e para ganhar umas massas, mas não vem para fazer vida. É certo que querer fazer e fazer são coisas muito diferentes. O acaso do amor, como todos sabemos, pode sempre pregar-nos umas partidas. E as desinteressantes condições financeiras de um assalariado em Portugal podem levar à eterna procrastinação. Ainda assim, acho que a maioria irá voltar. E a voltar, vamos ter uma geração muito interessante a viver em Portugal. Uma geração altamente qualificada, internacional, super viajada, fluente em várias línguas, com uma noção ampla do mundo e com uma noção do que pode ser o lugar do seu país no mundo.

Mas para já, poucos são os “retornados”. A maioria prefere continuar cá fora. A maioria prefere continuar na constante novidade, na condição de bem remunerado, na liberdade da ausência de pressão social de olhares conhecidos, no contacto constante com pessoas diferentes. A maioria prefere continuar no desafio de viver numa cultura estranha, no desafio de ter que comunicar numa língua diferente, no desafio de estar num ambiente de trabalho mais exigente, no desafio da saudade...