Nova Iorque, 22 de Novembro de 2011
Entre 1892 e 1954, 12 milhões de imigrantes passaram pela ilha de Ellis, um pequeno pedaço de terra imediatamente a sul da ilha de Manhattan que foi durante aquele período o principal posto federal norte-americano de controle de imigração. Atraídas pelo favorável contexto económico, e muitas vezes fugindo da fome, das Guerras e de perseguições religiosas, inúmeras famílias de vários cantos da Europa chegaram aos EUA em busca de um sonho; um sonho de liberdade e de melhores condições de vida. Apesar do criterioso e demorado processo de controle, a maioria dos recém-chegados foi recebida de braços bem abertos pelo governo dos EUA, sendo que apenas cerca de 2% das pessoas foram recambiadas, e essencialmente devido ao diagnóstico de doenças contagiosas. Os EUA viviam nessa altura uma fase marcante do processo de formação da sua identidade, uma nação que representou a salvação para milhões de estrangeiros que sentiram necessidade de fugir dos seus próprios países e que ao mesmo tempo se sustentou nesse influxo de pessoas para crescer do ponto de vista económico e populacional. Nessa altura, os EUA assumiam-se mais do que nunca como um país de imigrantes. Nessa altura... porque muita coisa parece ter mudado desde então...
O sentimento era generalizado entre os estudantes internacionais no meu MBA, um misto de surpresa e indignação por não termos as mesmas oportunidades de emprego que os norte-americanos tinham. Havia logo à partida um obstáculo cultural; a forma de ser muito própria dos norte-americanos concedia-nos uma forte desvantagem pela maior dificuldade na interacção durante os processos de recrutamento. Contudo, embora este obstáculo nos suscitasse muitas conversas críticas, não gerava queixas legítimas: quem decidiu ir estudar e procurar emprego num país tão diferente fomos nós, nós é que queríamos ser imigrantes, e portanto nós é que tínhamos de nos tornar mais norte-americanos, não eram os norte-americanos que tinham de nos aceitar como nós éramos. No entanto; certos obstáculos eram imunes a qualquer esforço de adaptação. Abrindo o website de emprego da faculdade, era desoladora a proporção de ofertas de emprego que tinham como requisito obrigatório já possuir autorização legal para trabalhar nos EUA. Eram poucos os empregadores que mostravam interesse em contratar alunos estrangeiros, poucos estavam dispostos a incorrer a custos e a envolver-se em burocracias para patrocinar uma candidatura a um visto de trabalho. Era tipo um Catch 22: para conseguir emprego era preciso ter visto de trabalho, para conseguir visto de trabalho era preciso ter emprego. Este obstáculo sim, gerava indignação, perplexidade em presenciar uma filosofia de American Jobs for American People em pleno século XXI.
As promessas de Barack Obama, de por um lado punir o incumprimento da lei por parte de quem passa ilegalmente a fronteira, mas também por outro lado de facilitar a concessão de vistos de trabalho, têm sido cumpridas apenas de forma parcial. Segundo um recente discurso do próprio Presidente realizado na cidade fronteiriça de El Paso, o policiamento das fronteiras com o México está mais rígido do que nunca, sendo que o número de agentes dedicados a esta função duplicou desde 2004. Um artigo da Reuters confirma estes esforços governamentais, relatando que durante o ainda incompleto actual mandato presidencial já foram deportados mais de um milhão de imigrantes ilegais, número que compara com um milhão e meio de deportados durante dois mandatos inteiros de George W. Bush. De facto, a primeira parte da promessa parece estar a ser cumprida. Quanto à segunda parte é que a estória parece ser outra. Na verdade, a culpa não pode ser atribuída de forma simplista a Obama; o Presidente teceu vários discursos de apoio ao DREAM Act, uma proposta que visava a legalização de imigrantes ilegais sob determinadas condições. Porém, o Senado rejeitou-a, para muita infelicidade dos mais de 11 milhões de imigrantes ilegais a viver no país. E em relação aos estudantes estrangeiros, também nada parece estar a ser feito com o intuito de mitigar os obstáculos burocráticos que aqueles jovens enfrentam aquando das suas tentativas, na sua maioria falhadas, para ficarem nos EUA após conclusão dos seus estudos. Esta situação persiste, mesmo apesar das críticas de vários políticos (de mente mais aberta) ao actual sistema que forma jovens estrangeiros nas universidades norte-americanas para depois mandá-los de volta para os seus países, incongruência que o Mayor nova-iorquino Michael Bloomberg chegou mesmo a denominar de "suicídio nacional".
A identidade dos EUA está em transformação, gradual, com o fechar de portas a vários daqueles estrangeiros que também gostariam de fazer parte do sonho americano; um processo irónico em que os descendentes dos imigrantes de ontem não sentem qualquer problema em recusar os imigrantes de hoje; a memória é curta... E aquela beleza inerente à construção de uma nação baseada no sonho de milhões de imigrantes das mais diversas origens vai parecendo ser, cada vez mais, uma coisa do passado.