Usam o verbo
"falar" como se fosse "dizer", o "ter" como se
fosse "haver", começam uma frase no tu e acabam-na no você. Falam no
gerúndio. São bem mais relaxados perante as regras gramaticais. Preferem o
"diz para ela" ao "diz-lhe", o "vou na praia" ao
"vou à praia". Desconhecem algumas palavras nossas, e nós também
desconhecemos algumas deles. Aqui "perceber" não significa "entender",
"gelado" não significa "sorvete" e "peão" não significa
"pedestre". A língua portuguesa aqui é usada de uma forma diferente.
Alguns de nós criticam, consideram-na desestruturada, alguns até a chamam de errada. Outros adoram, a musicalidade do seu sotaque, a desenvolta criatividade das suas gírias. Gostos são subjectivos! O que é um facto é que, se o português tem hoje a importância que tem, deve-se principalmente ao Brasil, que, com quase 200 milhões de habitantes, tem 75% de todos os falantes desta nossa língua, em vincado contraste com os menos de 4% que habitam em Portugal. Eles são o 5º país com mais território, o 5º mais populoso e a 6ª maior economia do mundo. Enquanto que nós nos queixamos de ser pequenos e periféricos, eles são grandes e o centro da região deles. E tais discrepâncias só tenderão a acentuar-se no futuro, pois estima-se que, em 2050, o Brasil tenha 260 milhões de habitantes (US Census Bureau) e seja a 4ª maior economia mundial (PwC), enquanto que Portugal permanecerá com cerca de 10 milhões de pessoas e a sua economia tornar-se-á relativamente menor.
E, se em Portugal temos o gosto dividido em relação ao português que se fala em terras de Vera Cruz, os estrangeiros parecem bem unânimes. Já foram vários os que conheci que gostariam de aprender ou que já estão a aprender português simplesmente porque acham-no bonito. Mas não é o nosso modo de falar que eles apreciam, não é da nossa maior elaboração sintáctica nem do nosso sotaque cheio de erres e de ches. Eles querem é aprender o português do Brasil, com as gírias daqui, eles gostam é do jeito de falar gingão, cantado e soletrado.
Quanto aos desvios gramaticais, não sei se temos muita moral para lhes apontar o dedo. Primeiro, porque uma coisa é o linguajar de rua e outra coisa é a linguagem formal - se, no Brasil, abrirmos um livro, lermos um contrato ou ouvirmos um discurso de alguém com níveis de educação mais elevados, constatamos que as nossas diferenças linguísticas afinal até são bem escassas. Segundo, porque nós também temos telhados de vidro: em Portugal muito se diz "estivestes" e "muita bom", e muito se confunde o "esqueces-te com o esqueceste", o "gostava com o gostaria" e o "benvindo" com o "bem-vindo". E se eles misturam o tu com o você, hão de reparar que nós misturamos o vós com o vocês... Acho que muitas vezes criticamos o que eles dizem simplesmente porque é diferente, e sendo assim se calhar o problema passa por uma falta nossa de abertura de mente.
Na verdade, acho que o não ser igual evidencia acima de tudo diversidade e riqueza cultural. O português aqui falado deixou de ser puramente europeu, foi moldado pelas distâncias e pelo tempo, foi tropicalizado, influenciado e adocicado pelo quimbundo e pelo tupi, indo desvendando no seu jeito e no seu vocabulário uma História fascinante e bela.
As normas gramaticais existem, e devemos sim zelar pela difusão do seu conhecimento e pelo seu cumprimento. Mas só em devaneio podemos exigir que toda a gente as domine, tal como não podemos forçar alguém a ter vontade de as seguir. Nem tampouco é expectável que o português informal seja igual em todos os cantos do mundo onde ele é falado. Contudo, independentemente de como se fala coloquialmente, devemos preservar e solidificar a unidade do português formal, pois isso vai ajudar a fazer com que esta língua se mantenha uma só. E diante de uma necessidade de reconvergência ou de simples alteração, parece-me óbvio, dada a desproporcionalidade das dimensões, qual o lado que tem que ceder mais.
Quer queiramos quer não, o Brasil tornou-se o centro da língua portuguesa, enquanto que em Portugal existe apenas um número residual de falantes. E à medida que este vasto país vai diminuindo o desnível económico face às nações mais desenvolvidas, mais verdadeira essa verdade se torna. Não importa onde a língua nasceu, pois isso é passado, importa o que ela é hoje e o que será no futuro, e nós devemos ter a capacidade e o pragmatismo para reconhecê-lo e aceitá-lo. E, embora haja certamente muitos fatalistas lusitanos que se queixarão por sermos cada vez menores e por já nem a nossa própria língua controlarmos, pelo contrário, vejo com optimismo e entusiasmo o facto de fazermos parte duma comunidade linguística e cultural que se tornou muito maior do que nós e que continua crescer e a diversificar-se muito além das nossas fronteiras, pois isso embeleza-nos, alarga-nos os horizontes e cria-nos oportunidades.
Alguns de nós criticam, consideram-na desestruturada, alguns até a chamam de errada. Outros adoram, a musicalidade do seu sotaque, a desenvolta criatividade das suas gírias. Gostos são subjectivos! O que é um facto é que, se o português tem hoje a importância que tem, deve-se principalmente ao Brasil, que, com quase 200 milhões de habitantes, tem 75% de todos os falantes desta nossa língua, em vincado contraste com os menos de 4% que habitam em Portugal. Eles são o 5º país com mais território, o 5º mais populoso e a 6ª maior economia do mundo. Enquanto que nós nos queixamos de ser pequenos e periféricos, eles são grandes e o centro da região deles. E tais discrepâncias só tenderão a acentuar-se no futuro, pois estima-se que, em 2050, o Brasil tenha 260 milhões de habitantes (US Census Bureau) e seja a 4ª maior economia mundial (PwC), enquanto que Portugal permanecerá com cerca de 10 milhões de pessoas e a sua economia tornar-se-á relativamente menor.
E, se em Portugal temos o gosto dividido em relação ao português que se fala em terras de Vera Cruz, os estrangeiros parecem bem unânimes. Já foram vários os que conheci que gostariam de aprender ou que já estão a aprender português simplesmente porque acham-no bonito. Mas não é o nosso modo de falar que eles apreciam, não é da nossa maior elaboração sintáctica nem do nosso sotaque cheio de erres e de ches. Eles querem é aprender o português do Brasil, com as gírias daqui, eles gostam é do jeito de falar gingão, cantado e soletrado.
Quanto aos desvios gramaticais, não sei se temos muita moral para lhes apontar o dedo. Primeiro, porque uma coisa é o linguajar de rua e outra coisa é a linguagem formal - se, no Brasil, abrirmos um livro, lermos um contrato ou ouvirmos um discurso de alguém com níveis de educação mais elevados, constatamos que as nossas diferenças linguísticas afinal até são bem escassas. Segundo, porque nós também temos telhados de vidro: em Portugal muito se diz "estivestes" e "muita bom", e muito se confunde o "esqueces-te com o esqueceste", o "gostava com o gostaria" e o "benvindo" com o "bem-vindo". E se eles misturam o tu com o você, hão de reparar que nós misturamos o vós com o vocês... Acho que muitas vezes criticamos o que eles dizem simplesmente porque é diferente, e sendo assim se calhar o problema passa por uma falta nossa de abertura de mente.
Na verdade, acho que o não ser igual evidencia acima de tudo diversidade e riqueza cultural. O português aqui falado deixou de ser puramente europeu, foi moldado pelas distâncias e pelo tempo, foi tropicalizado, influenciado e adocicado pelo quimbundo e pelo tupi, indo desvendando no seu jeito e no seu vocabulário uma História fascinante e bela.
As normas gramaticais existem, e devemos sim zelar pela difusão do seu conhecimento e pelo seu cumprimento. Mas só em devaneio podemos exigir que toda a gente as domine, tal como não podemos forçar alguém a ter vontade de as seguir. Nem tampouco é expectável que o português informal seja igual em todos os cantos do mundo onde ele é falado. Contudo, independentemente de como se fala coloquialmente, devemos preservar e solidificar a unidade do português formal, pois isso vai ajudar a fazer com que esta língua se mantenha uma só. E diante de uma necessidade de reconvergência ou de simples alteração, parece-me óbvio, dada a desproporcionalidade das dimensões, qual o lado que tem que ceder mais.
Quer queiramos quer não, o Brasil tornou-se o centro da língua portuguesa, enquanto que em Portugal existe apenas um número residual de falantes. E à medida que este vasto país vai diminuindo o desnível económico face às nações mais desenvolvidas, mais verdadeira essa verdade se torna. Não importa onde a língua nasceu, pois isso é passado, importa o que ela é hoje e o que será no futuro, e nós devemos ter a capacidade e o pragmatismo para reconhecê-lo e aceitá-lo. E, embora haja certamente muitos fatalistas lusitanos que se queixarão por sermos cada vez menores e por já nem a nossa própria língua controlarmos, pelo contrário, vejo com optimismo e entusiasmo o facto de fazermos parte duma comunidade linguística e cultural que se tornou muito maior do que nós e que continua crescer e a diversificar-se muito além das nossas fronteiras, pois isso embeleza-nos, alarga-nos os horizontes e cria-nos oportunidades.