O lado de lá


Lisboa, 24 de Setembro de 2012
A palavra emigrar virou obsessão nacional. Ser hoje português implica viver cercado por inúmeros e contundentes apelos, quase imperativos, à emigração, numa ditadura que não permite segundas opiniões. Se antes era mau, hoje dizem que o país é horrível, sufocante e até miserável. Difundem-se retóricas depressivas de tal ordem que sugerem que se trata do pior país do mundo. A comunicação social, os familiares, os amigos apregoam repetitivamente sobre a desgraça que é viver em Portugal, sobre as virtudes da vida lá fora, ensinam os portugueses desde a sua mais tenra idade que o futuro só existe além fronteiras, que o sucesso é estrangeiro, que ficar é errar.
Mas lá fora para onde? - pergunta-se à partida. Para qualquer sítio, qualquer coisa é melhor que isto - respondem. Generalizações cegas, muitas vezes vindas de pessoas que nunca saíram daqui, repetem-se como se o mundo não fosse um imbróglio de problemas, como se a televisão não mostrasse fome, guerras, golpes de estado, favelas, crime, pessoas a viver com menos de 1 dólar por dia, como se Portugal não fosse um paraíso no meio disto tudo, onde há praia, clima agradável, segurança nas ruas, estabilidade política, rendimentos relativamente elevados quando comparados ao custo de vida. Difundem-se ideias transversais sobre o "lá fora" como se a crise fosse somente portuguesa, muitas vezes com o desaforo de quem não tem o hábito de ler uma única notícia internacional, omitindo que a taxa de desemprego anda elevada por quase todo o mundo, que a austeridade é um problema que se estende até muito além de Portugal.
Porque é que não emigra você? - pergunta-se em seguida. Chegou a hora das desculpas, do ameaçar e não agir, do aconselhar a ir para a esquerda enquanto se ruma para a direita. Pessoas, novamente aquelas que nunca saíram daqui, falam de emigrar sem qualquer mínimo de noção do que isso implica, sem que elas próprias tenham coragem para o fazer. Urgem que nos piremos com uma total ligeireza, desconhecendo o desafio que é chegar a um país novo, como se lá estivessem a oferecer empregos à saída do aeroporto, como se não houvesse a legítima possibilidade de inadaptação, como se não se sofresse com a distância da família, como se não houvesse xenofobia...
Abundam estórias de sucesso de portugueses nos vários cantos do mundo: salários milionários, ascensões rápidas nas carreiras. Muitos sentem maior satisfação por terem passado a trabalhar num mercado de maior dimensão, por estarem agora no centro mundial da sua profissão. E outros, devido às grandes mudanças que têm ocorrido na economia portuguesa simplesmente deixaram de ter emprego na sua área (os engenheiros civis por exemplo, perante a repentina e quase total paragem na construção de obras públicas) e, não querendo ou não conseguindo mudar de ofício, a palavra emigrar passou a significar poder trabalhar.
Contudo, omitem-se as estórias de insucesso, e pouco se fala dos problemas lá de fora. É preciso ir lá para ver. Nos EUA presenciei muitos despedimentos, e vi amigos com MBAs tirados em escolas de topo a passar por enormes dificuldades para encontrar trabalho, sendo que alguns estão ainda hoje desempregados, mais de um ano depois de terem finalizado o MBA. E quando estive em São Paulo conheci portugueses que foram para lá à procura de emprego, e alguns deles estavam próximos de desistir, ouvi relatos de uns que conseguiram emprego de menor qualidade do que o que tinham antes em Portugal, e outros que efectivamente desistiram de procurar e voltaram para casa. É no mínimo irónico pensar que alguns largaram um emprego em Portugal porque "não dava perspectivas" para ir atrás de uma esperança de emprego grandioso num outro país que acabou por não se materializar, tendo trocado algo por nada, tendo se deixado levar por um sonho utópico que a obsessão (doentia?) portuguesa lhes vendeu.
E mesmo nos casos de sucesso há muito exagero, só se relatam os êxitos, só os que lograram têm vontade de contar os seus feitos. E há também aqueles que pintam a sua realidade para convencer os outros (ou a si mesmos) de que estão melhor do que realmente estão. E há ainda quem diga estar emigrado por razões financeiras escondendo muitas vezes que a verdadeira razão é pessoal: casos amorosos mal resolvidos, problemas familiares, conflitos com o seu meio social, necessidade de afirmação; muitos partiram para começar uma vida do zero, sendo para tal necessário estar bem longe da vida anterior.
De facto, ao contrário do que se dita genericamente em Portugal, nem para toda a gente emigrar demonstra ser um boa solução profissional. No início deste ano, Frei Sales Diniz, Director da Obra Católica das Migrações, abordou este tema do insucesso na emigração, referindo-se em particular às pessoas com mais dificuldades: "Muitos portugueses, em vários países da Europa, estão a viver em situações dramáticas, sem meios de sobrevivência, a viver na rua, sem trabalho e muitos deles sem meios para voltar a Portugal, e também existem muitos que não querem voltar a Portugal por uma certa vergonha de regressarem na situação miserável em que se encontram." E, recentemente, uma reportagem da RTP também mostrava isso: relatava inúmeros casos de portugueses que vão para o Reino Unido à procura de emprego e acabam a dormir nas ruas... No entanto, pelo que conheço de nós mesmos, haverá muitos por cá que dirão que essas pessoas estão certamente melhor lá do que estariam cá, como se aqui não tivessem mais hipóteses de ter um familiar ou amigo para os apoiar, como se as ruas do Reino Unido não fossem mais frias do que as nossas...
Para muitos compensará arriscar e correr atrás da possibilidade de se tornarem uma daquelas estórias de sucesso, de melhorarem a sua qualidade de vida, de vingarem no centro global da sua especialidade. Outros partem daqui já com contratos chorudos, e para esses valerá certamente a pena, quer dizer, pelo menos do ponto de vista financeiro... Pode também haver o desejo de se ser internacional em detrimento de se ser nacional. E muitas vezes também faz sentido ir mesmo que o destino seja fracassar, porque assim se aprende muito: tentar, cair e ter que levantar faz-nos amadurecer, ou endurecer... E, na verdade, há que partir se a razão se prender simplesmente com uma ânsia por conhecer o mundo, acreditar que ter uma experiência internacional será importante para a própria formação tal como é tirar um curso ou um mestrado. Viver fora do próprio país é muitíssimo enriquecedor, conhecer outros mundos alarga o nosso mundo. Quanto a mim, que estou novamente de partida, julgo ser o resultado de uma mistura de alguns destes motivos. E volto a ir, mas deixo o alerta: tenham cuidado aqueles que partem certos de que lá fora encontrarão a salvação.

Pela América

Nova Orleães, 17 de Março de 2012
Viajar pelos EUA é algo contraditório. Começando logo pelo facto de que poucos por aqui viajam. Nova Iorque, Las Vegas, Califórnia estão cheios de turistas, mas não é disso que falo. Falo em ir a Atlanta e quase não ver estrangeiros, falo em atravessar o Alabama de comboio e não ver um único mochileiro. Conhecer os EUA não é algo que atraia aquele tipo de viajantes que se satisfaz a entrar por países adentro à sua descoberta. Esses preferem outros destinos, os exóticos, aventurosos, remotos ou antigos Sudeste Asiático, América do Sul, Austrália e Europa; pouca gente tem uma insaciável curiosidade em conhecer o verdadeiro Estados Unidos da América. Não critico, é muito mais giro voltar de uma viagem com histórias para contar do Cambodja, do Peru, da Colômbia ou da Eslovénia do que do Arkansas ou do Tenessi. Além de que, se vamos gastar tanto dinheiro numa viagem, porquê fazê-lo num país tido como culturalmente todo igual, sem História e cheio de edifícios novos monumentizados? No entanto, a verdade não é bem essa. Pôr o pé em distintos lugares dos EUA rapidamente se torna num processo de desmantelamento de preconceitos.

Os EUA estão longe de ser a uniformidade cultural que muitos acreditam ser. Não estou a argumentar que este país tem uma diversidade do nível da europeia, porque não tem: aqui há jornais, canais de televisão e uma língua comuns. O que estou a dizer é que isto não é o bloco cultural unitário simples assente em hamburguers, diners e cheerleaders que muitos imaginam. A cada ponto dos EUA que se conhece revela-se uma subcultura diferente, evidenciam-se abismais diferenças nas formas de estar, nos sotaques, nas comidas, nas religiões, nos níveis de riqueza (ou de pobreza) e até nas composições étnicas das populações. O estilo de vida de praia californiano é totalmente distinto da selva urbana nova-iorquina onde "time is money", tal como é do ambiente calmo e universitário de Boston ou da vida em torno do governo central de Washington D.C. ou ainda do ruralismo do Sul onde só os ansiosos tem pressa. Quanto à comida, em Nova Iorque comem-se bagels, em Maine lagostas e em Luisiana ostras, camarões e crocodilos. O país é altamente religioso, mas a religiosidade é expressa nas mais diversas formas e com fortes variações de região para região: em New York, ou em Jew York como alguns lhe chamam, habita a segunda maior comunidade judaica do mundo depois de Israel, em Utah cerca de 60% da população é Mórmon - religião que na larga maioria dos outros estados é uma excentricidade, os Católicos constituem 40% da população de Nova Jersey mas apenas 5% da população do Arkansas, no Alabama mais de 80% são protestantes. Em níveis de desenvolvimento também há diferenças, tendo o Distrito de Colúmbia um PIB per capita três e cinco vezes superior ao do Wyoming e ao do Mississípi, respectivamente. Quanto a grupos étnicos, ainda que a maioria seja branca, o Sul é bem negro, o Alasca vermelho e o Havaí amarelo.

E dizer que os EUA não têm História é um total exagero; a História deles é curta mas rica. Visitar Atlanta é descobrir uma cidade que foi totalmente queimada pelas tropas da União durante a guerra civil e que foi posteriormente reconstruída a partir das cinzas, é também conhecer a terra-natal de Martin Luther King e aquilo que foi um centro de luta dos negros pelo direito à igualdade; ir a Boston é ir onde começou o movimento Tea Party e a Revolução Norte-Americana e onde nasceram duas das mais conceituadas universidades do mundo; ir a Washington D.C. é ser aculturado pelos ideais dos Founding Fathers e visitar a uma cidade que foi invadida e semi-destruída por ingleses sedentos por recuperar o controlo da ex-colónia, ir à Califórnia é conhecer um Estado que fazia parte do México e que foi conquistado pelos norte-americanos por via da guerra, ir a Nova Orleães é ir à procura das origens do Jazz, ler sobre os barcos carregados de algodão que desciam o Mississípi e sentir reminiscências do apartheid que se viveu nos estados do sul.

E no que toca a cultura, nós criticamo-los por tão básicos e pouco genuínos que são, mas somos nós que temos apenas um desporto nacional e que nem sequer é nosso, enquanto que eles têm quatro: o football americano, o hoquéi no gelo, o baseball e o basketball; nós temos o Fado, e eles têm o Country, o Jazz e o Blues; eles têm o "God Bless America", o "Land of the Free" e a convicção cega de que este é a "The Greatest Nation on Earth" enquanto que nós, embora outrora já tenhamos tido algo semelhante, escolhemos já não ter nada disso; até os edifícios novos monumentizados têm muito mais do que o 'nada' que muitos lhe atribuiem, eles são símbolos da prosperidade e do sucesso que é manter estes estados unidos, reforçando a União ao criar elementos de dimensão nacional. Não, não estou a dizer que a cultura deles é mais interessante do que a nossa, porque não acho que seja; o que digo é que isto vai muitíssimo além do vazio que muitos ignorantemente assumem que é.

Viajar pelos EUA  é um processo quase contínuo de confirmação e negação de preconceitos, não tivemos nós passado as nossas vidas embebedados por uma massiva mas parcial exportação cultural norte-americana, é conversar com a pessoa do lado e perceber que eles de facto raramente ou nunca saem do país mas viajam muito cá dentro, é ficar fascinado com a ascendência dos mais variados países que este povo tem, é tentar perceber como o que poderia ter se tornado num conjunto de países distintos se tornou afinal num só, é chegar ao bar e ter que escolher por uma das oito cervejas de pressão disponíveis, é ir para Nova Orleães saltar de bar em bar a curtir o Jazz e o Blues. Viajar pelos EUA bem que pode ser pouco exótico, mas de desinteressante não tem nada.

"I'm Portuguese." "From Brazil?"

Nova Iorque, 16 de Janeiro de 2012

"No... From Portugal." A reacção a esta minha resposta é frequentemente a mesma: um olhar confuso, de quem acha que os portugueses são habitantes do Brasil e de quem não sabe o que é Portugal, e uma expressão de desilusão, por eu afinal não ser daquele país maravilhoso que é o Brasil. No MBA, havia colegas meus que ao fim de mais de um ano ainda me confundiam com brasileiro, isto após de eu os ter corrigido duas a três vezes. É exactamente como um amigo meu norte-americano disse (meio) na brincadeira: "se não fosse o Cristiano Ronaldo ninguém saberia que Portugal é um país".
 
Tenho dificuldade em perceber este desconhecimento sobre Portugal. Se calhar é por eu ser português, e poderei portanto achar que Portugal foi mais do que aquilo que realmente foi. Mas mesmo com um esforço de racionalização, parece-me excessivo o total desconhecimento sobre o país que teve o mais duradouro império global da História, país onde nasceu o quinto idioma mais falado do mundo, e que esteve na vanguarda das ligações Américas-Europa-Oriente.
 
Nem é que nos EUA a marca Portugal seja fraca, ela é inexistente. E é curioso que no extremo oposto está um país que tem muito de Portugal: a marca Brasil nos EUA é fortíssima. Quase todos os norte-americanos são deslumbrados com o Brasil e com a cultura brasileira. Muitas vezes nem conhecem, nunca foram ao Brasil nem nunca conviveram com brasileiros, mas adoram, há um fascínio preconceituoso pelo Brasil no imaginário norte-americano. Apesar do Brasil ser um país com elevados níveis de criminalidade e de corrupção, o que prevalece é sempre e somente a imagem de um povo alegre, amigável e simpático, onde a vida roda toda em torno da festa, da praia, das mulheres bonitas e dos biquínis fio-dental. Aliás, quando eu falo da possibilidade de ir trabalhar para São Paulo, os norte-americanos comentam imediatamente a minha sorte em ir morar para perto da praia, nem se apercebendo que Nova Iorque fica bem mais perto da praia do que São Paulo.
 
Acho que o facto do Brasil ser um país extenso geograficamente, populoso, com uma cultura única e com uma forte indústria musical leva à propagação natural da marca Brasil. Mas há coisas que foram fabricadas. Na internet encontram-se várias referências a como, no âmbito da "Política da Boa Vizinhança" da década de 1940, que visava essencialmente a aproximação da cultura dos EUA à da América Latina pela defesa de interesses políticos e económicos, o governo de Franklin D. Roosevelt contratou a Walt Disney para a produção de entretenimento de conteúdo propagandístico. Neste contexto surgiu a "Aquarela do Brasil", onde o Zé Carioca apresenta o Brasil e o ser-se brasileiro ao norte-americano Pato Donald, mostrando-lhe um país exuberante, cheio de música, com gente amável, receptiva e muito alegre, e com uma cultura mágica, exótica e contagiosa que até conseguiu pôr o frequentemente irritado Pato Donald a dançar o samba. O sucesso deste filme combinado com o antecessor sucesso nos EUA da cantora (portuguesa) Carmen Miranda - que também é referida como sendo parte de uma estratégia propagandística - moldaram as ideias dos norte-americanos sobre o Brasil.
 
Em nada do que li vi alguém estabelecer relações entre estas estratégias de marketing de há cerca de 60 anos atrás com a visão generalizada que os norte-americanos tem hoje do Brasil e dos brasileiros. Mas a verdade é que esta visão bate certinha com as características do Zé Carioca. E até há esforços que levaram à construção de uma marca Brasil mais antigos que isso e que continuam a ser visíveis nos dias de hoje. Segundo o livro Brazil - Five Centuries of Change de Thomas E. Skidmore, foi no tempo da ditadura de Gétulio Vargas, há mais de 70 anos atrás, com o apoio de um investimento governamental em eventos e publicidade, que se consolidou o futebol e o samba como símbolos da identidade nacional brasileira, sendo que hoje continuam a sê-lo. E, agora, pergunto intrigado: Será que o recente filme "Rio" terá nascido numa lógica semelhante à da "Aquarela do Brasil"?
 
E todos nós sabemos que o sucesso da marca brasileira vai além fronteiras norte-americanas. Basta recordarmos quantos foram os portugueses que durante viagens ou Erasmus já se fizeram passar por brasileiros com objectivo de se tornarem mais apelativos aos olhos de uma miúda estrangeira - e a verdade é que resulta!...
 
Mas as vantagens de ter uma boa marca nacional vão muito além de aumentar as nossas probabilidades de sucesso na sedução do sexo oposto - não que isso não seja importante... Ter uma marca Portugal forte significaria uma maior capacidade para atrair investimento para o nosso país, para atrair turismo, para exportar os nossos produtos e para melhorar a imagem que um recrutador tem de nós quando nos candidatamos a um emprego ou a um mestrado no estrangeiro.
 
Por isso pergunto: para quando um investimento a sério na marca Portugal?