"I'm Portuguese." "From Brazil?"

Nova Iorque, 16 de Janeiro de 2012

"No... From Portugal." A reacção a esta minha resposta é frequentemente a mesma: um olhar confuso, de quem acha que os portugueses são habitantes do Brasil e de quem não sabe o que é Portugal, e uma expressão de desilusão, por eu afinal não ser daquele país maravilhoso que é o Brasil. No MBA, havia colegas meus que ao fim de mais de um ano ainda me confundiam com brasileiro, isto após de eu os ter corrigido duas a três vezes. É exactamente como um amigo meu norte-americano disse (meio) na brincadeira: "se não fosse o Cristiano Ronaldo ninguém saberia que Portugal é um país".
 
Tenho dificuldade em perceber este desconhecimento sobre Portugal. Se calhar é por eu ser português, e poderei portanto achar que Portugal foi mais do que aquilo que realmente foi. Mas mesmo com um esforço de racionalização, parece-me excessivo o total desconhecimento sobre o país que teve o mais duradouro império global da História, país onde nasceu o quinto idioma mais falado do mundo, e que esteve na vanguarda das ligações Américas-Europa-Oriente.
 
Nem é que nos EUA a marca Portugal seja fraca, ela é inexistente. E é curioso que no extremo oposto está um país que tem muito de Portugal: a marca Brasil nos EUA é fortíssima. Quase todos os norte-americanos são deslumbrados com o Brasil e com a cultura brasileira. Muitas vezes nem conhecem, nunca foram ao Brasil nem nunca conviveram com brasileiros, mas adoram, há um fascínio preconceituoso pelo Brasil no imaginário norte-americano. Apesar do Brasil ser um país com elevados níveis de criminalidade e de corrupção, o que prevalece é sempre e somente a imagem de um povo alegre, amigável e simpático, onde a vida roda toda em torno da festa, da praia, das mulheres bonitas e dos biquínis fio-dental. Aliás, quando eu falo da possibilidade de ir trabalhar para São Paulo, os norte-americanos comentam imediatamente a minha sorte em ir morar para perto da praia, nem se apercebendo que Nova Iorque fica bem mais perto da praia do que São Paulo.
 
Acho que o facto do Brasil ser um país extenso geograficamente, populoso, com uma cultura única e com uma forte indústria musical leva à propagação natural da marca Brasil. Mas há coisas que foram fabricadas. Na internet encontram-se várias referências a como, no âmbito da "Política da Boa Vizinhança" da década de 1940, que visava essencialmente a aproximação da cultura dos EUA à da América Latina pela defesa de interesses políticos e económicos, o governo de Franklin D. Roosevelt contratou a Walt Disney para a produção de entretenimento de conteúdo propagandístico. Neste contexto surgiu a "Aquarela do Brasil", onde o Zé Carioca apresenta o Brasil e o ser-se brasileiro ao norte-americano Pato Donald, mostrando-lhe um país exuberante, cheio de música, com gente amável, receptiva e muito alegre, e com uma cultura mágica, exótica e contagiosa que até conseguiu pôr o frequentemente irritado Pato Donald a dançar o samba. O sucesso deste filme combinado com o antecessor sucesso nos EUA da cantora (portuguesa) Carmen Miranda - que também é referida como sendo parte de uma estratégia propagandística - moldaram as ideias dos norte-americanos sobre o Brasil.
 
Em nada do que li vi alguém estabelecer relações entre estas estratégias de marketing de há cerca de 60 anos atrás com a visão generalizada que os norte-americanos tem hoje do Brasil e dos brasileiros. Mas a verdade é que esta visão bate certinha com as características do Zé Carioca. E até há esforços que levaram à construção de uma marca Brasil mais antigos que isso e que continuam a ser visíveis nos dias de hoje. Segundo o livro Brazil - Five Centuries of Change de Thomas E. Skidmore, foi no tempo da ditadura de Gétulio Vargas, há mais de 70 anos atrás, com o apoio de um investimento governamental em eventos e publicidade, que se consolidou o futebol e o samba como símbolos da identidade nacional brasileira, sendo que hoje continuam a sê-lo. E, agora, pergunto intrigado: Será que o recente filme "Rio" terá nascido numa lógica semelhante à da "Aquarela do Brasil"?
 
E todos nós sabemos que o sucesso da marca brasileira vai além fronteiras norte-americanas. Basta recordarmos quantos foram os portugueses que durante viagens ou Erasmus já se fizeram passar por brasileiros com objectivo de se tornarem mais apelativos aos olhos de uma miúda estrangeira - e a verdade é que resulta!...
 
Mas as vantagens de ter uma boa marca nacional vão muito além de aumentar as nossas probabilidades de sucesso na sedução do sexo oposto - não que isso não seja importante... Ter uma marca Portugal forte significaria uma maior capacidade para atrair investimento para o nosso país, para atrair turismo, para exportar os nossos produtos e para melhorar a imagem que um recrutador tem de nós quando nos candidatamos a um emprego ou a um mestrado no estrangeiro.
 
Por isso pergunto: para quando um investimento a sério na marca Portugal?

Um comentário:

  1. A minha experiência na Ásia não foi bem assim, muitas vezes fui surpreendida por taxistas que sabiam bem onde era Portugal, os países por onde deixamos marcas por lá e até sabem distinguir muito bem jogadores portugueses e brasileiros (e nem só o Cristiano!)
    Mas concordo que um pouco mais de investimento na marca Portugal só nos fazia bem ;)
    beijinhos e até ao Brasil!

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