Nova Iorque, 31 de Dezembro de 2011
Há uma sensação constante de que podemos falar com (quase!) quem quisermos nesta cidade: com o vizinho, com alguém que passa na rua, com a pessoa que trabalha ao balcão, com o passageiro no metro, com o espectador no concerto, com a miúda que está no café sentada na mesa do lado... Facilmente desconhecidos imergem em conversas quotidianas como se esta metrópole de um pequeno bairro se tratasse.
Começa-se tipicamente pelo simples prazer da conversa. "You have an accent, don't you?... Where are you from?" ou "I see you pretty often. Do you live around here?" E por vezes encontram-se coisas em comum. Ambos trabalham no mesmo ramo e trocam-se cartões. Ambos procuram um novo apartamento e trocam-se experiências sobre o processo de busca. Um procura emprego e o outro conhece quem procure empregar, "send me your resume". Uma pessoa interessa-se por algo que um desconhecido tem: "Is that the new iPad? How do you like it? I'm thinking of buying one myself..." e trocam-se opiniões sobre o produto. Um está a tirar um MBA, o outro quer tirar um MBA, pergunta-se, responde-se, trocam-se ideias. É certo que a maioria destas conversas nunca passará de uma conversa entre desconhecidos, mas é impressionante o que se pode aprender assim, as oportunidades que podem surgir assim.
Em Lisboa é exactamente o contrário. Se eu quiser falar com a pessoa ao meu lado no café, é-me difícil, a minha vontade é imediatamente obstruída por uma barreira cultural que se exibe como intransponível. Não faz sentido virar-me e perguntar: "Isso é o novo blackberry? Que giro! E está contente com a compra?" Nem muito menos questionar: "O que é que você faz da vida?" Se para nós conversar com um desconhecido já não é muito normal, falar sobre as respectivas situações laborais ou sobre os objectivos pessoais constitui um enorme desvio à norma. Até falar com uma miúda desconhecida é-nos mais difícil: "Mas eu conheço-te de algum lado?!" respondem elas frequentemente a abordagens menos elaboradas.
Mas porque será? Porque é que não nos é fácil estabelecer conversas com alguém que não conhecemos? Achar-nos-emos mais importantes do que aquela pessoa que está a almoçar mesmo ao nosso lado? Ou do que aquele indivíduo com quem compartilhamos o trajecto de autocarro? Acharemos que não temos nada para aprender? Será arrogância? Insegurança? Desconfiança acerca das intenções de quem nos aborda? Ou, será por outro lado, simplesmente e ironicamente, a nossa forma de estar menos individualista, mais voltada para as relações, que nos faz focar apenas nas pessoas que temos e ignorar as demais?
Àqueles a que a resposta passa pelo mau carácter, que continuem a prestar esse seu serviço silencioso à comunidade. Aos remanescentes, pergunto: porque não experimentar? A perder, exceptuando um olhar mais surpreso ou uma ausência de resposta, sinceramente não adivinho nada. A ganhar, o agradável ambiente de bairro ou de pequena cidade coabitado com as vantagens de se viver num grande centro populacional. E, quem sabe, potenciais novas ideias e oportunidades.
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