São Paulo, 8 de Julho de 2013
Muito
mudou desde aquela capa do The Economist, em finais de 2009, que mostrava a
estátua carioca do Cristo Redentor a levantar voo. Nessa época, os jornais quase
só continham boas notícias sobre o Brasil, o PIB crescia aceleradamente, muitos
ascendiam à classe média, havia uma febre de consumo, grandes IPO’s,
fundos de investimento que eram inaugurados uns atrás dos outros, empresas com
elevadíssimas perspectivas de crescimento, multinacionais brasileiras (bem
capitalizadas num mundo descapitalizado) aumentavam pujantemente os seus
tentáculos, novos milionários e bilionários criavam-se e outros
consolidavam-se. O Brasil era um El Dorado, o gigante que finalmente começava a
andar, enchia-se o peito e gritava-se "é a bola da vez". Hoje, com a
economia bem menos dinâmica e com surtos de instabilidade social, o sentimento
é cada vez mais de pessimismo entre locais e estrangeiros.
Durante
o período do optimismo (durante o qual fiz o meu estágio do MBA no Rio de
Janeiro), resgatavam-se os históricos discursos grandiosos, que vêm já desde
quando o Brasil ainda nem se chamava Brasil, já visíveis na carta de Pero Vaz
de Caminha a El-Rei D. Manuel, invocando as belezas maravilhosas, as riquezas
inigualáveis, o clima invejável, as maiores reservas de água potável, a maior
floresta tropical, as terras mais férteis, as enormes reservas minerais e
petrolíferas, a maior produção de minério de ferro, a maior capacidade de
exportação de carne, café, açúcar e tabaco, a colossal extensão do território,
o povo pacífico e amigável, um lugar de magnífico potencial económico, o país
do futuro. Hoje, quase que se atira a toalha ao chão, há muita desilusão, e
muita chacota, indignação, posturas críticas contra o mau funcionamento de
muita coisa, contra a falta de infraestrutura e serviços públicos, contra o
crime e a corrupção, há receio de um eventual regresso da inflação, aumentou o
deslumbre com a vida lá fora, com o que é europeu e principalmente com o que é
dos EUA, voltou a descrença quanto ao desenvolvimento e à industrialização, é o
país do futuro e sempre o será.
Enfrentando
uma menor demanda chinesa por matérias-primas, um consumo que começa a esbarrar
nos limites do endividamento e muitas medidas governamentais que atentam contra
a iniciativa privada, a economia brasileira encontra de facto bem menos razões
para se apresentar robusta. Mas tal veloz passagem do ufanismo ao desânimo,
tocando por vezes no complexo de inferioridade, apenas mostra que houve muito
exagero nas apreciações que foram feitas acerca do futuro da economia
brasileira. Houve claramente uma euforia
com o momento que era positivo e achou-se cegamente que o que gerava
crescimento estava para ficar. Bem me recordo que havia vozes de discórdia, mas
essas ouviam-se mais baixo, gritar contra uma multidão em marcha apenas nos dá
voz rouca, e o que prevalecia era a excessiva confiança.
Mas
se o optimismo veio em demasia, o mesmo poderá estar a acontecer com este recente
pessimismo. É provável que os próximos tempos (talvez dois ou três anos?) sejam
economicamente mais difíceis no Brasil, que as empresas comecem a demonstrar
mais sintomas do abrandamento e que o (quase) pleno emprego deixe de ser uma
realidade. Mas, desde que o negativismo não se materialize na possibilidade (que,
para já, é aparentemente remota) de regresso aos longos e muito difíceis de
navegar tempos da bancarrota e da hiperinflação, o Brasil continuará a ser o
Brasil, com todos os seus problemas e as suas virtudes, com novos ciclos de
expansão e de contracção pela frente.
Tal
agitação de ânimos em nosso redor complica as nossas tomadas de decisão,
principalmente porque seguir os agitados tende apenas a conduzir-nos a chegadas
e a saídas tardias. Mas, por outro lado, não podemos isolar-nos
intelectualmente e achar que tudo o que se diz está errado, porque muito do que
se diz está certo. Temos de conseguir ter a arte para ouvir e discernir o que é
verdadeiro do que é exagerado, percebendo também que o que é um facto hoje não necessariamente continuará a
sê-lo amanhã e tendo sempre em mente que o que é bom para uns poderá ser mau
para outros, e vice-versa. E isto não se aplica apenas ao Brasil, aplica-se a muitos
outros lugares, inclusive Portugal.