Outros nós


São Paulo, 28 de Fevereiro de 2013


Vindo dos EUA, chegar ao Brasil suscita uma forte sensação de familiaridade. Senti-o mais do que uma vez, mais no Rio de Janeiro do que em São Paulo. São ruas e ruas com calçada portuguesa, a comida tão parecida com a nossa, em alguns casos igual. Ouvir a nossa língua, poder compreender tudo o que nos dizem sem grande esforço. Chegar a um novo país já conhecendo muito sobre ele. Aqui, desenvencilhamo-nos de uma forma muito natural, apanhamos rapidamente como as coisas funcionam, integramo-nos facilmente. E, numa altura em que muitas pessoas de vários países estão aqui imigradas, nota-se marcadamente que nenhum outro estrangeiro consegue entender e viver o Brasil como um português.
 
O idioma faz toda a diferença. Facilita a resolução dos problemas do dia-a-dia, possibilita as mais variadas interacções sociais e amizades, abre-nos portas profissionais, dá-nos informação e confiança pelo constante entendimento do que se fala em nosso redor.
 
Mas vai muito além da língua. Quando cheguei aos EUA, deparei-me com diferenças culturais muito expressivas. Os americanos têm uma forma de viver única, que, embora tenha bases ocidentais, rege-se muitas vezes por valores muito distintos dos nossos. No Brasil, as diferenças têm se revelado muito menores. Faz sentido, de outra forma não poderia ser: fomos parte do mesmo país durante mais de três séculos. É certo que a cultura se molda com o tempo, podendo mudar tão rapidamente quanto de uma geração para outra, muito mais com dois séculos de separação política e um Atlântico de distância. Mas há determinados traços que mostram ter perdurado, parece que estão de tal forma enraizados na sociedade que aguentaram praticamente inalterados décadas após décadas, preservados também com a ajuda das muitas vagas de imigração portuguesa que ocorreram ao longo dos tempos. E de facto muita coisa parece ter vindo directamente de Portugal: os valores da família, o espírito mais colectivista, os princípios católicos, o viver em casa dos pais até idade tardia, a hospitalidade, a miscigenação racial, o sentimento de simpatia por outros povos, a ideia de que lá fora tudo funciona melhor, a vivência do dia pelo dia, a cultura do almoço, a desorganização, a burocracia, a capacidade de contornar essa burocracia e de viver bem nessa desorganização, o jeitinho ou o desenrasca.
 
Mas não veio só daí para aqui, são inúmeros os traços que vieram daqui para aí, algo muito mais contemporâneo, permitido pelo surreal desenvolvimento das telecomunicações: TV, internet, facebook, whatsapp, e pela enorme facilidade em viajar, que proporcionam muito mais contactos entre os dois povos e levam a uma re-convergência cultural em muitos aspectos. Crescemos a ver as novelas deles, a ouvir todo o tipo de música deles, desde ao Funk das favelas ao Bossa Nova de Ipanema, vemos mais filmes deles do que nossos, usamos cada vez mais gíria brasileira, vamos enchendo as nossas praias com mini-biquinis e caipirinhas. Quantos não são os portugueses que têm um pouco de Brasil em si?
 
Tudo isto facilita a nossa interacção com este país e com este povo, tudo isto nos faz sentir mais próximos de casa aqui do que, por exemplo, nos EUA, na Alemanha ou na China... E proporciona-se um fenómeno singular: em nenhum outro país que morei ou visitei vi os portugueses tão bem integrados com a população local. Aqui vêem-se grupos de amigos constituídos por portugueses e brasileiros.
 
Temos uma visão do Brasil e um saber estar nele muito diferente de todos os outros estrangeiros. Pelo que sabemos e pelo que somos, temos a capacidade de experienciar o Brasil por inteiro. Verdade seja dita: não somos bem estrangeiros! Podemos gostar ou desgostar de várias coisas no Brasil, mas estrangeiros aqui não nos sentimos. Somos brasileiros em muitas vertentes, tal como eles são portugueses em muitas outras, separámo-nos politicamente, mas não somos independentes. E curioso, hoje que tanto se fala do europeísmo e de uma possível federação europeia, damos por nós a redescobrir que temos muito mais a ver com os brasileiros do que com a maioria dos povos europeus.