São Paulo, 16 de Junho de 2013
Em 2007, alguns brasileiros conhecidos, entre eles Seu Jorge, Djavan, Milton Nascimento e Ildi Silva, submeteram-se a testes genéticos, em busca da sua ancestralidade (iniciativa da BBC Brasil). Os resultados foram muito pouco surpreendentes: encontraram-se raízes africanas, ameríndias e europeias, e em proporções que evidenciam várias gerações de mestiçagem. E, eles não são, de todo, excepções.
44% da população brasileira considera-se mestiça (IBGE 2009). E a este já por si alto percentual ainda acrescerão todos aqueles que tem ascendentes de outra raça e que não o sabem ou que por qualquer razão não o desejam declarar. Na verdade, nem precisamos de estatísticas, basta andar pelas ruas para verificá-lo, parecem infinitas as tonalidades de pele, uns mais claros, outros mais escuros, um longo dégradé entre o negro e o branco, passando pelo vermelho e o amarelo. A misturada é tal que o ex-Presidente do Brasil (e também ele mestiço) Fernando Henrique Cardoso uma vez jocosamente escreveu: "de vez em quando, pais de pele clara têm um filho mais escuro e ninguém desconfia, pois ninguém sabe o que aconteceu umas quantas gerações atrás."
E mesmo o branco brasileiro é frequentemente uma mescla de brancos de origens distintas, como a portuguesa, a italiana, a espanhola, a holandesa e a alemã. Tal como o negro brasileiro, descendente de diversas etnias oriundas de lugares como o que são hoje o Congo, Angola e Moçambique. E ainda há as ascendências de árabes, de japoneses e de indígenas americanos. É uma multiplicidade de combinações. E é uma mestiçagem que, tanto quanto sei, é singular.
Perante tal evidência, já na década de 30, o sociólogo Gilberto Freyre começou a descrever a miscigenação racial brasileira como elemento mitigador das desigualdades sociais, referindo-se posteriormente ao Brasil como sendo "a mais avançada democracia racial do mundo”. Aparentemente muitos foram os seus críticos, e porventura haverá ainda hoje quem questione se em vez de sociologia, Freyre não estaria a praticar puro lirismo ou então propaganda política. Contudo, ainda que talvez um pouco exagerado, ele terá o seu quê de razão. Basta pensar que, nos EUA, o casamento interracial passou a ser legal em todo o seu território somente a partir de 1967 e que, na África do Sul, o apartheid foi abolido apenas no surrealmente tardio ano de 1994. Ao invés, no Brasil, o cruzamento vem acontecendo desde o início da colonização dos portugueses, que, segundo historiadores, por já serem eles uma consequência de fusões (lusitanos com celtas, romanos, germânicos, muçulmanos e até judeus), associado ao facto da sua maioria ter chegado à colónia desacompanhado de mulher, tinham uma maior propensão para se envolverem com mulheres das populações indígena e escrava.
Contudo, a harmonia não é perfeita. Longe disso... Existem desigualdades, e diria até que muito vincadas. Segundo um inquérito do IBGE, em 2009, entre as pessoas auto-declarados negras ou mestiças apenas 5% tinham curso superior e 13% eram analfabetas, em contraste com as taxas de 15% e de 6%, respectivamente, entre as pessoas auto-declaradas brancas. Além disso, o salário médio do primeiro grupo era 40% inferior ao do segundo. E, qualquer olhar minimamente atento rapidamente repara que as classe mais altas são essencialmente brancas, e que os mais desfavorecidos são mulatos e negros. Outra pesquisa, de 2011, mostra que 64% dos brasileiros considera que a raça interfere na qualidade de vida dos cidadãos. Sim, existe racismo no Brasil. Visível não só nos desníveis económicos, mas também em alguns preconceitos e tensões que vão transparecendo no que se ouve e no que se lê.
Contudo, e felizmente para a igualdade de direitos, as coisas parecem estar a mudar. Durante os últimos 10 anos, nos quais o Brasil viveu um período de franco desenvolvimento económico, das 40 milhões de pessoas que ascenderam à classe média, 75% são negros (Instituto Data Popular). Há também algumas personalidades de referência, além daquelas dos mundos (mais meritocráticos?) dos desportos e das artes, que hoje são negras, entre as quais se destaca o Joaquim Barbosa (Presidente do Supremo Tribunal de Justiça). E, agora olhando para o futuro, o crescente desenvolvimento cultural que o mundo tem vindo a presenciar deverá fazer com que os preconceitos irracionais como racismo tendam a diminuir, tornando-se cada vez menos aceites, e no limite invertendo-se a situação, gerando-se um ambiente impróprio para quem tem a ignorância de querer discriminar. Quer dizer, pelo menos assim o desejamos. E o Brasil, o país com mais afro-descendentes fora de África, precisa disso.
Num mundo onde os ideais passam cada vez mais por desprezar o racismo e onde as sociedades que conseguem integrar pessoas de origens diferentes são vistas como um símbolo de cosmopolitismo e de desenvolvimento cultural, mas também num mundo onde a realidade se distancia muito do idealizado, o Brasil destaca-se com os seus 5 séculos de miscigenação. E, se conseguir ter a capacidade para resolver os problemas raciais que ainda o assolam, e sem a qual não poderá se transformar na Grande Nação que ambiciona ser, o Brasil poderá tornar-se num exemplo de equilibrada convivência entre diferentes seres humanos. Exemplo que tanto faz falta ao mundo.
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