São Paulo, 25 de Junho de 2013
O Brasil acordou para a política. Pequenos desabafos
passivos ou meramente satíricos entre amigos durante almoços ou ao sabor de
chopps converteram-se repentinamente em ruas cheias de gente gritando e
erguendo grandes exigências e severas críticas numa total afronta aos
políticos, soltando-se indignações há muito contidas. E assim, como que de um dia
para o outro, o povo brasileiro descobriu que pode demandar.
Protestos em São Paulo contra um aumento da tarifa de ônibus
transformaram-se e alastraram-se, tornando-se numa gigante e espontânea revolta
contra os muitos problemas do país. Centenas de milhares de pessoas na rua,
novos, velhos, estudantes, trabalhadores, pobres e ricos, contra uma panóplia
de falhas, desde a corrupção dos governantes, ao elevado custo de vida, ao
despesismo na construção dos estádios para o Mundial e à falta de qualidade dos
serviços públicos como transportes, saúde e educação. Quanto aos culpados,
esses parecem muito bem identificados: os políticos; tanto os que estão no poder,
como os que já estiveram e os que querem estar.
O governo, transparecendo medo, veio prontamente anunciar
a revogação dos aumentos das tarifas de ônibus em vários lugares do país. Em
consequência, a manifestação fortaleceu-se e veio para a rua exigir mais. E o
governo continuou a decidir sob as ordens dos protestos: anulou-se o programado
reajuste anual das portagens das rodovias de São Paulo, anunciaram-se umas
quantas reduções de impostos e de outras tarifas de transportes, e a Presidente
Dilma Rousseff veio discursar promessas de responsabilidade fiscal, de reforma
política, de combate à corrupção e de desenvolvimento dos sistemas de transportes, de saúde e de educação.
Muito disto soou a populismo, principalmente se recordarmos que estamos apenas
a cerca de um ano das eleições. Só faltava mesmo mandar prender de imediato
alguns dos acusados do mensalão para que assim se conseguisse levar o povo à
euforia... E, a rapidez foi tal que fez destes anúncios algo pouco democrático,
com a autoridade a ceder à vontade dos que mais fizeram barulho, levantando-se
a questão se isto foi democracia ou barulhocracia. Acresce que, apesar dos anúncios
grandiosos e de tom estadista, além da redução de tarifas e de impostos, houve
muito pouco de novo, fingindo-se que não existiram os planos PAC 1 e PAC 2
que muito prometeram e pouco fizeram e fingindo-se que a vontade de pôr mão na corrupção é uma coisa nova. E fica também a dúvida de como é que os
governantes vão conciliar cortes de tarifas e de impostos e novos planos de
investimento com o comprometimento em manter a sanidade orçamental, especialmente
num momento em que a economia desacelera e a inflação aumenta. Esperamos para
ver, mas provavelmente não vão passar das meras palavras.
Contudo, independentemente da acção do governo, as
manifestações são uma grande vitória para o Brasil. Num país onde a corrupção e
o crime proliferam, onde muito do que é público funciona mal, e onde os
governantes vivem confortáveis com tais situações, somente uma forte vontade do
povo tem capacidade para gerar mudança. É certo que as reivindicações têm sido
difusas, e por vezes com pouco sentido, tal como a financeiro-ignorante
exigência de tornar os transportes públicos gratuitos. Mas, no seu grosso, são
mais do que legítimas, querendo a população apenas que o Estado cumpra a sua obrigação:
que proteja os cidadãos da insegurança e do crime e que use as verbas recolhidas
sob a forma de impostos para preservar e desenvolver os espaços e sistemas públicos.
Agora os governantes sentem que estão sob uma intransigente apreciação, sob o
olhar bem atento de quem eles deveriam estar a representar. E essa pressão é
boa para o país, principalmente porque eles sabem que isto não é uma revolta
contra um problema temporário. Eles sabem que, com a taxa de desemprego em
níveis historicamente baixos e após uma década de fortes melhorias na qualidade
de vida da população, os protestos nascem não de um desespero com uma situação
actual, embora esta não esteja tão boa quanto já esteve, mas da
consciencialização por parte de pessoas em ascensão cultural e económica de que
há problemas e que muitas coisas têm que ser diferentes. E, tirando alguns
casos em que os nervos se exaltaram e outros em que selvagens se aproveitaram
da confusão para roubar e depredar, as manifestações têm sido civilizadas e
pacíficas. Acho que, principalmente por isso, representam um marco histórico
para o Brasil. Uma viragem, em que queixas passivas se transformaram numa real
vontade de mudar e de construir.
Ainda é cedo para entendermos o impacto de tudo isto. E às
vezes assusta o facto de que as manifestações exibem um fundo de revolta contra
o mau funcionamento da democracia, pois, na ausência de uma nova ideologia e na
existência de um repúdio popular a uma eventual ditadura, tem-se mesmo que se conseguir completar a difícil e trabalhosa tarefa de melhorar as instituições democráticas
existentes, porque há o risco de emergir a anarquia. Por isso,
é preciso ter a calma e a paciência inerentes à compreensão de que nada vai
mudar de um dia para o outro: elevar os sistemas de transportes, justiça, saúde
e educação a patamares desenvolvidos é uma tarefa para vários e talvez longos
anos. Mas, por outro lado, não se pode parar, porque se a população voltar à
normalidade, os governantes prontamente também o farão.
Mediante tão árduo caminho, o que vai garantir a mudança
não é a reiteração de promessas homéricas por parte do governo, mas uma vontade
da população em não deixar que esta exteriorização da indignação se torne efémera,
e contribuir para o progresso do país no dia-a-dia, com cada um dos cidadãos a
tentar fazer com que o que está em seu redor vá melhorando gradualmente, porque
uma vontade revolucionária de mudar tudo e de um dia para o outro pouco deverá
conseguir e comporta um risco elevado de descambar no caos. Mas, acima de tudo,
o que é preciso é que a descrença que agora virou esperança assim persista.
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