O Senhor é branco ou latino?

Nova Iorque, 29 de Setembro de 2011

Batem à porta. "Boa tarde. Recebemos o seu census incompleto, faltou-lhe nomeadamente preencher a parte da raça ou etnia. O Senhor é branco, latino, negro, asiático, americano nativo, nativo do Alasca ou outro?"
 
Mas que obsessão com a raça é esta? Liga-se a televisão e os programas de comédia passam horas em piadas sobre estereótipos raciais, há comediantes que fazem carreiras de sucesso baseadas quase exclusivamente em temas de conteúdo racial; os noticiários não se calam com categorizações por raça ou por origem, com o Presidente que é negro, com o impacto que determinada decisão do Mayor tem no seio da comunidade hispânica ou da comunidade judaica, com o não sei quem que é latino. Na minha faculdade havia associações de estudantes negros, latinos, judeus e asiáticos, só não havia associações de estudantes brancos (porque isso seria racismo...). E havia também eventos de recrutamento para empresas destinados exclusivamente para negros, latinos e outras "minorias". As referências a raças sucedem-se nos meios de comunicação, a discriminação "positiva" imposta pelas instituições, ou diria imposta pela pressão das "minorias", está espalhada pela sociedade, havendo facilidades de acesso a faculdades, a bolsas de estudo e a empregos para pessoas de determinadas raças, especialmente para negros e latinos.

Para um português isto tudo é desconfortável, até meio agressivo, porque para nós isto tudo é racismo. Nós encaramos as diferenças raciais de forma diferente: publicamente calamo-nos, porque falar de diferenças seria como que dizer que não somos iguais. Nós só abordamos o tema da raça quando é de facto necessário fazê-lo para explicar uma determinada situação. Em Portugal, as referências a raça em voz alta são raras, tais como são raras as piadas raciais na televisão, e tais como são raras as notícias sobre temas raciais. E não nos passa pela cabeça definir institucionalmente facilidades de acesso a faculdades ou a empregos para um determinado tipo de pessoas só porque estas pessoas têm uma determinada cor de pele. Para nós isso seria injusto, seria racismo.
 
"Olhe... eu não sei qual é a minha raça, sempre achei que era latino mas também sempre achei que era branco... Escreva a senhora o que achar que eu sou." "Não! Quem tem que dizer a sua raça é o senhor." E a obsessão é tanta que chega a tocar no ridículo: isto é um bocado à base da auto-identificação. Para dizer a verdade, eu estava só a ser chato. Eu já sabia perfeitamente que, de acordo com a definição norte-americana de latino, eu não sou latino, pois aqui esta palavra refere-se não a pessoas de qualquer país de língua latina mas a pessoas de qualquer país americano de língua latina. Contudo, bastava eu ter uma qualquer ascendência longínqua num país da América Latina para poder me auto-identificar como latino. Chega a haver pessoas brancas, abastadas e culturalmente muito norte-americanizadas que só porque são netas de um sul-americano têm direito a facilidades no acesso a faculdades e a empregos. E no caso dos negros a história também é muito flexível. Aqui o conceito de mulato não existe. Segundo a descrição que está no website do census norte-americano, uma pessoa de raça negra é qualquer pessoa que tenha na sua ascendência alguém de etnia africana, não se referindo a nenhuma quantidade mínima de ascendentes negros. Uma pessoa que seja três quartos branca e um quarto negra é considerada negra, ainda que essa pessoa seja mais branca do que negra. O Obama é negro, a Condoleezza Rice é negra, o Colin Powell é negro e a Mariza se fosse norte-americana também seria negra, ainda que todas estas pessoas sejam mulatas e algumas delas quase brancas. E não ser exactamente branco é quanto basta para se ter a vida facilitada no processo de candidatura a faculdades e a empregos.

Quando confrontados sobre a justiça disto tudo, os norte-americanos frequentemente invocam o passado altamente discriminador contra não-brancos e em particular contra pessoas de raça negra. E de facto, basta sair à rua e olhar à volta para perceber que as coisas aqui deverão ter sido ainda mais duras do que noutros sítios. Comparando por exemplo com o Brasil, país que tal como os EUA foi populado essencialmente por imigrantes europeus e por um grande influxo de escravos negros, verifica-se aqui uma grande diferença. Enquanto que no Brasil o que se vê mais são mulatos, uns mais negros e outros mais brancos mas mulatos, aqui quase não se vêem mulatos, aqui há brancos e há negros. Julgo que é esta forte discriminação de uns para um lado e outros para outro que leva a este sentimento de revolta contra a condição económica mais elevada das pessoas de raça branca e que leva as pessoas de raça negra a terem capacidade de exigir mecanismos institucionais que os compensem pelo facto de serem descendentes de escravos, na medida em que esta condição está associada à enorme desvantagem hereditária que é crescer em seios familiares desfavorecidos e de níveis de educação muito baixos.
 
Não me passa pela cabeça discordar desta ideia de instituir formas de favorecer quem nasceu desfavorecido. Uma pessoa que cresce num ambiente pobre, num subúrbio manhoso, que tem como referência pessoas que não deveriam ser referência para ninguém ou que frequenta high schools mal-frequentados não terá as mesmas oportunidades que terá uma pessoa que nasce num bairro rico. Dar a estas pessoas a oportunidade que nunca tiveram é uma questão de justiça social. E na verdade, até é mais do que isso: às vezes basta uma oportunidade concedida à pessoa certa no momento certo para fazer a diferença entre ter mais um marginal na rua ou ter mais um membro a acrescentar valor à sociedade. Sou a favor da democratização das oportunidades, e de redireccioná-las para quem nunca as teve. Mas fazê-lo com critérios de raça ou de origem, não! Compreendo que em média pessoas de determinadas raças nascem em ambientes mais desfavorecidos do que pessoas de outras raças. Contudo, nem todas as pessoas estão na média. Há latinos, tal como há negros, que nascem com condições sócio-económicas muito favoráveis. Não faria mais sentido direccionar a concessão extraordinária de oportunidades às pessoas de classes sociais mais baixas, sejam elas negras, amarelas, castanhas ou brancas? O critério de estrato social é uma solução que atacaria de forma mais directa o problema da desigualdade de acesso a oportunidades. E além disso, adoptar um critério desligado de raças mitigaria a constante invocação de temas de conteúdo racial, parando de alimentar este traço cultural norte-americano em que as pessoas são metidas em cestos, como se cada pessoa carecesse de uma personalidade própria e individual.

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