Pela América

Nova Orleães, 17 de Março de 2012
Viajar pelos EUA é algo contraditório. Começando logo pelo facto de que poucos por aqui viajam. Nova Iorque, Las Vegas, Califórnia estão cheios de turistas, mas não é disso que falo. Falo em ir a Atlanta e quase não ver estrangeiros, falo em atravessar o Alabama de comboio e não ver um único mochileiro. Conhecer os EUA não é algo que atraia aquele tipo de viajantes que se satisfaz a entrar por países adentro à sua descoberta. Esses preferem outros destinos, os exóticos, aventurosos, remotos ou antigos Sudeste Asiático, América do Sul, Austrália e Europa; pouca gente tem uma insaciável curiosidade em conhecer o verdadeiro Estados Unidos da América. Não critico, é muito mais giro voltar de uma viagem com histórias para contar do Cambodja, do Peru, da Colômbia ou da Eslovénia do que do Arkansas ou do Tenessi. Além de que, se vamos gastar tanto dinheiro numa viagem, porquê fazê-lo num país tido como culturalmente todo igual, sem História e cheio de edifícios novos monumentizados? No entanto, a verdade não é bem essa. Pôr o pé em distintos lugares dos EUA rapidamente se torna num processo de desmantelamento de preconceitos.

Os EUA estão longe de ser a uniformidade cultural que muitos acreditam ser. Não estou a argumentar que este país tem uma diversidade do nível da europeia, porque não tem: aqui há jornais, canais de televisão e uma língua comuns. O que estou a dizer é que isto não é o bloco cultural unitário simples assente em hamburguers, diners e cheerleaders que muitos imaginam. A cada ponto dos EUA que se conhece revela-se uma subcultura diferente, evidenciam-se abismais diferenças nas formas de estar, nos sotaques, nas comidas, nas religiões, nos níveis de riqueza (ou de pobreza) e até nas composições étnicas das populações. O estilo de vida de praia californiano é totalmente distinto da selva urbana nova-iorquina onde "time is money", tal como é do ambiente calmo e universitário de Boston ou da vida em torno do governo central de Washington D.C. ou ainda do ruralismo do Sul onde só os ansiosos tem pressa. Quanto à comida, em Nova Iorque comem-se bagels, em Maine lagostas e em Luisiana ostras, camarões e crocodilos. O país é altamente religioso, mas a religiosidade é expressa nas mais diversas formas e com fortes variações de região para região: em New York, ou em Jew York como alguns lhe chamam, habita a segunda maior comunidade judaica do mundo depois de Israel, em Utah cerca de 60% da população é Mórmon - religião que na larga maioria dos outros estados é uma excentricidade, os Católicos constituem 40% da população de Nova Jersey mas apenas 5% da população do Arkansas, no Alabama mais de 80% são protestantes. Em níveis de desenvolvimento também há diferenças, tendo o Distrito de Colúmbia um PIB per capita três e cinco vezes superior ao do Wyoming e ao do Mississípi, respectivamente. Quanto a grupos étnicos, ainda que a maioria seja branca, o Sul é bem negro, o Alasca vermelho e o Havaí amarelo.

E dizer que os EUA não têm História é um total exagero; a História deles é curta mas rica. Visitar Atlanta é descobrir uma cidade que foi totalmente queimada pelas tropas da União durante a guerra civil e que foi posteriormente reconstruída a partir das cinzas, é também conhecer a terra-natal de Martin Luther King e aquilo que foi um centro de luta dos negros pelo direito à igualdade; ir a Boston é ir onde começou o movimento Tea Party e a Revolução Norte-Americana e onde nasceram duas das mais conceituadas universidades do mundo; ir a Washington D.C. é ser aculturado pelos ideais dos Founding Fathers e visitar a uma cidade que foi invadida e semi-destruída por ingleses sedentos por recuperar o controlo da ex-colónia, ir à Califórnia é conhecer um Estado que fazia parte do México e que foi conquistado pelos norte-americanos por via da guerra, ir a Nova Orleães é ir à procura das origens do Jazz, ler sobre os barcos carregados de algodão que desciam o Mississípi e sentir reminiscências do apartheid que se viveu nos estados do sul.

E no que toca a cultura, nós criticamo-los por tão básicos e pouco genuínos que são, mas somos nós que temos apenas um desporto nacional e que nem sequer é nosso, enquanto que eles têm quatro: o football americano, o hoquéi no gelo, o baseball e o basketball; nós temos o Fado, e eles têm o Country, o Jazz e o Blues; eles têm o "God Bless America", o "Land of the Free" e a convicção cega de que este é a "The Greatest Nation on Earth" enquanto que nós, embora outrora já tenhamos tido algo semelhante, escolhemos já não ter nada disso; até os edifícios novos monumentizados têm muito mais do que o 'nada' que muitos lhe atribuiem, eles são símbolos da prosperidade e do sucesso que é manter estes estados unidos, reforçando a União ao criar elementos de dimensão nacional. Não, não estou a dizer que a cultura deles é mais interessante do que a nossa, porque não acho que seja; o que digo é que isto vai muitíssimo além do vazio que muitos ignorantemente assumem que é.

Viajar pelos EUA  é um processo quase contínuo de confirmação e negação de preconceitos, não tivemos nós passado as nossas vidas embebedados por uma massiva mas parcial exportação cultural norte-americana, é conversar com a pessoa do lado e perceber que eles de facto raramente ou nunca saem do país mas viajam muito cá dentro, é ficar fascinado com a ascendência dos mais variados países que este povo tem, é tentar perceber como o que poderia ter se tornado num conjunto de países distintos se tornou afinal num só, é chegar ao bar e ter que escolher por uma das oito cervejas de pressão disponíveis, é ir para Nova Orleães saltar de bar em bar a curtir o Jazz e o Blues. Viajar pelos EUA bem que pode ser pouco exótico, mas de desinteressante não tem nada.

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